terça-feira, 25 de março de 2014

Arcos...


Dois Arcos-Íris

Meu poema é pobre
– Meu bolso, mais ainda –,
Mas me anunciava um arco-íris
(Ou dois, se eu bem olhasse
Com um pouco mais de poesia),
A despontar no meio do céu escuro
E parado de minha morbidamente
Vazia e contemplativa tarde
De andarilho desocupado,
O sorriso de uma criança
Agarrado, como que por encanto, a um portão:
Já que me foram as alegrias
Que nunca me falte a visão!

(Dilberto L. Rosa, 2004)

sábado, 15 de março de 2014

Chico e Os Outros Maurícios

Tirando uma ou outra edição especial de relançamento das boas histórias antigas, que sempre comprei com gosto, eu me afastara completamente do universo de Mauricio de Sousa há bastante tempo. Seja por causa da falta de originalidade a partir do comecinho dos anos 90, com visíveis empobrecimentos dos traços e dos enredos (muito em razão da desenfreada sana do desenhista-empresário em atingir tantas mídias e faixas etárias ao mesmo tempo), seja pelo excesso de personagens que começou a inundar as revistinhas, o nível caiu ao de uma mesmice infantilizada, quase de apenas uma vitrine para venda de produtos licenciados (bonecas e brinquedos em geral, roupas, DVDs em série etc.)...

Isso até o período entre o final do ano passado e o começo deste, quando um dos meus personagens mais queridos, o adorável caipira criado para tirinhas de jornal em 1963, Chico Bento (que, assim como a Mônica, começou como coadjuvante), surgiu com duas novidades que me motivaram a voltar aos Quadrinhos MSP: Chico Bento Moço, que, apesar da atraente premissa sentimental sobre os meninos da roça nos primeiros dilemas da juventude, como a faculdade, decepcionou-me bastante e não passa de uma fraca transposição do estilo da ruim de Turma da Mônica Jovem para o pessoal do interior, com o aborrecido traço no estilo "mangá" (tanto que fiquei só no primeiro número, com o Chico indo cursar Agronomia na "capitar"); e, do finalzinho de janeiro vem a divertidíssima Clássicos do Cinema 41 - Super-Home, com levada no melhor estilo MAD a satirizar não só a melhor adaptação cinematográfica de HQs de todos os tempos, o clássico Superman - O Filme (com direito a Chico Bento como Chickael/Clark Bent e Zé Lelé como Lelex Luto!) como também a homenagear inúmeros outros grandes da Ficção Científica, como E.T., o pessoal de Guerra nas Estrelas, dentre outros – diversão nerd garantida para todas as idades!

E olha que esta minha grata surpresa vem a ser o primeiro exemplar que compro de uma linha que brinca com filmes de sucesso: fiel à boa simplicidade dos "planos infalíveis" do Cebolinha ou ao mundo de inocência debochada do Chico de até então, por exemplo, não curtia muito aquelas historinhas metidas a engraçadinhas distantes dos universos normais do Limoeiro ou da Vila Abobrinha... Talvez por isso jamais tenha gostado das mais novas incursões da Mauricio de Sousa Produções, as tais graphic novels  da linha Graphic MSP, com releituras mais adultas ou realistas dos seus antigos personagens por novos e grandes nomes do Quadrinho nacional, como Danilo Beiruth (Astronauta - Magnetar), Vitor e Lu Cafaggi (Turma da Mônica - Laços), Gustavo Duarte (Chico Bento - Pavor Espaciar) e, mais recentemente, Shiko (Piteco - Ingá): à exceção da saudosista Laços (já comentada por aqui), nenhuma delas me cativou, uma vez que nada guardam dos originais, jamais criando empatia para leitores mais tradicionais como eu... 

Se for para ver novas caracterizações dos famosos tipos do Mauricio, prefira a divertida MSP 50: Mauricio de Sousa por 50 Artistas, onde grandes talentos do traço nacional (veteranos Laerte, Ziraldo e mais jovens como Fábio Moon e Gabriel Bá) respeitaram bem mais os medalhões da casa com suas versões afetivas da Turma da Mônica, do Chico Bento e de outros adoráveis secundários (Louco, Astronauta etc.) – de tão boa, já gerou duas continuações e outros tantos correlatos (como o recém-lançado Mônica(s)).

Mas nem só de modernidades caça-níqueis ou releituras por outros artistas vive o império deste super-ativo octogenário: houve um tempo em que o Mauricio era um cara tremendamente criativo, ali por entre o seu apenas razoável começo de carreira nos jornais dos anos 60 e o seu auge nas revistinhas da Abril dos anos 80 – são dessa época os quase desconhecidos do grande público Os Sousa, referência ao sobrenome do próprio autor, com piadas de comportamento sobre uma família de classe média dos anos 70 que funcionam bem até hoje, e Nico Demo, humor politicamente incorreto com um garotinho (nem sempre) inocente diante das tragicomédias da sociedade. Infelizmente, nenhum dos dois teve vida longa nos Quadrinhos: sem obter o mesmo sucesso das "turmas" famosas, as poucas tiras publicadas encontram-se hoje em dois livrinhos de bolso da editora L&PM Pocket...




quarta-feira, 5 de março de 2014

Oscarnaval ou O Cinema do Crioulo Doido


Um solitário folião em meio a confetes e serpentinas ou um revoltado espectador global já perdendo a gravidade?

Acredito que o querido blogueiro de plantão conheça a expressão “samba do crioulo doido” – ainda que possa desconhecer a sua origem ou o seu significado. E, ao final dessa época festiva de botar os Black blocks na rua e de carnavais cinematográficos, o assunto soa bastante salutar... Pois bem, trata-se de um samba de autoria do já falecido Sergio Porto, jornalista e escritor sempre muito bem humorado sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, que, além do clássico Febeapá: Festival de Besteiras que Assolam o País (obra literária da década de 60, mas ainda bastante atual), deu ao Teatro de Revista (e também à Música brasileira) a pérola Samba do Crioulo Doido (1968), nele contando a debochada história de um negro sambista, até então obrigado a estudar calhamaços de História do Brasil para compor os sambas de enredo da sua querida Escola, mas que surta quando o tema dado é “a atual conjuntura” – o pobre compositor, assim, mistura tudo o que decorara antes de fatos históricos numa letra inusitada: Joaquim José/ Que também é/ Da Silva Xavier/ Queria ser dono do mundo/ E se elegeu Pedro II/ Das estradas de Minas/ Seguiu pra São Paulo/ E falou com Anchieta/ O vigário dos índios/ Aliou-se a Dom Pedro/ E acabou com a falseta/ Da união deles dois/ Ficou resolvida a questão/ E foi proclamada a escravidão...

E alguém aí, por acaso, já viu algo mais tosco e confuso do que misturar carnaval e cinema? Quase como água e óleo, essa química parece ter funcionado somente em raríssimas ocasiões, como em Orfeu Negro, de 1958 – e, mesmo assim, restando hoje bastante datado. Só lá uma vez ou outra esta mistura gera algo bacana nalguma alegoria de algum desfile perdido na memória... Sim, porque, na maioria das vezes, o resultado soa canhestro demais e, ou nos deparamos com uma produção cinematográfica farsesca demais, similar a um carro alegórico de mau gosto, ou caímos na gargalhada diante de uma Escola de Samba que desliza feio numa homenagem rocambolesca a um filme ou personagem popular... São coisas mesmo tão díspares que até o mais caro multiplex dos shopping centers resolve baixar o preço do ingresso para atrair mais público nos três dias de Momo: em outras palavras, quem está na folia não pode olhar o que anda na tela (e vice-versa)!

E o que é que a Rede Bob... digo, Globo de Televisão fez no “domingo gordo”? Conseguiu novamente, como de costume, os direitos de transmissão da entrega do Oscar. Mas, sem a ameaça da concorrência sobre a popular premiação hollywoodiana, preferiu exibir os seus ainda mais populares em terras tupiniquins Big Bost... digo, Brother Brasil e o já tradicional desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio no mesmo horário da famosa atração de Los Angeles (exibida mundialmente ao vivo, no último domingo, a partir das 21 horas, horário de Brasília)! Mas e o Oscar: a Globo não ia mesmo passar? Bem, a emissora acabou achando mais interessante reunir sua bela global da vez, Fernanda Lima, a Mônica Iozi (o que essa menina foi fazer na Globo? E o que essa menina entende de Cinema?), Alexandre Borges (?!) e outros convidados da área da moda (!) para comentarem os ins e os outs no tapete vermelho, numa compilação pra lá de chinfrim e mal editada, exibida somente na tarde da segunda-feira seguinte à premiação... Os filmes premiados? Ah, eles falaram disso, também... Mas o que é que é isso, minha gente: uma imitação barata do metidinho Fashion Police do canal E! (espécie de TVFama dos gringos ricos) ou a exibição de uma premiação cinematográfica?!

Definitivamente, é o “Samba da Globo Doida”! Tudo bem que a patriotada do Oscar normalmente está para a legítima 7ª Arte como o BBB está para os estudos da Sociologia, mas e o respeito àqueles que gostam de acompanhar a premiação e não dispõem dos canais da TV paga (o Oscar foi exibido no Brasil pelo TNT, canal do grupo Warner)? Já não bastava o que o Império das telecomunicações brasileiras costumava fazer nos anos anteriores, cortando quase pela metade a atração norte-americana... por causa do próprio BBB (que, por sua vez, também corta a exibição dos desfiles)? No mínimo, uma injustiça! Especialmente este ano, em que foi até um pouco mais caprichada a escolha dos candidatos aos prêmios principais... Eu mesmo, que nunca apreciei o oba-oba competitivo entre os grandes estúdios e de todo aquele glamour carnavalesco da mais famosa premiação deles, sempre achei legal acompanhar o Oscar. E, fosse para falar mal dos ganhadores (como assim, Titanic com o mesmo número de Oscars de Ben-Hur?!), fosse para fazer bolão de apostas com os amigos (quem perdia, pagava o jantar!), fosse ainda para me atualizar com os últimos lançamentos, o certo é que, todo ano, lá estava eu diante da TV até a madrugada do dia seguinte vendo um dos mais famosos shows da televisão estadunidense, com todos os seus prós e contras.

Tudo bem, neste ano não foi nada tão diferente assim... Mais uma vez achei tudo meio sem graça (Ellen DeGeneres?! Chamem o Billy Chrystal!): cada vez menos “espetáculo” e mais “ligeirinha”, a noite teve pouca coisa de realmente interessante! Mas prossegui com minhas “torcidas” pelos “melhorzinhos”! Sim, tentei ver todos os indicados, pelo menos os nove principais, os da categoria de melhor filme, porém, apesar de ter conseguido baixar todos pela internet (e com cópias em HD: viva o download intercontinental e sem fronteiras!), novamente foi tudo debalde, só conseguindo ver dois: Gravidade Capitão Phillips – além da muito boa comédia dramática Blue Jasmine, do Mestre Woody Allen, que corria por fora, concorrendo somente a melhor atriz (Cate Blanchet, merecidamente premiada na sua impressionante releitura da Blanche DuBois, de Um Bonde Chamado Desejo) e melhor roteiro original (Allen, que “perdeu” – como se ele se importasse... – para o sempre inventivo Spike Jonze e seu promissor Ela).

Curiosamente, apesar de ansioso por ver a sardônica comédia de Martin Scorcese, O Lobo de Wall Street, ou os dramas 12 Anos de Escravidão (ganhador dos Oscars de melhor filme e melhores atriz coadjuvante e roteiro adaptado) e Nebraska, que parecem bem interessantes, acabei mesmo vendo os dois “filmes-tensão” concorrentes da noite: espécie de subgênero misto, oriundo do Drama, do Suspense e da Aventura de Ação (santo carnaval!), este novo estilo de filme meio que foi “inaugurado” recentemente com o ótimo Voo United 93, do mesmo diretor do competente Capitão Phillips, Paul Greengrass, e tem como característica principal a quase ausência de enredo, substituído por uma situação-limite em andamento (um acidente, um sequestro etc.) que deverá ser resolvida a qualquer preço – “Ah, mas isso já foi feito, e desde os anos 70, com a grande leva de filmes-catástrofe como Inferno na Torre ou O Destino do Posseidon”, poderia pensar o incauto blogueiro de plantão... Mas eu afirmo: este novo padrão “filme-tensão” é diferente!

Vide o exemplo do grande “campeão” da noite, com 7 Oscars – mais do que merecidos melhores efeitos especiais, efeitos sonoros, mixagem de som, montagem e direção (Cuarón), além de fotografia (!) e trilha sonora (!!): Gravidade pega aquele conceito que descrevi acima, bastante caro ao Greengrass em seus bem orquestrados trabalhos mais recentes (com as histórias reais do famoso voo sequestrado por membros da Al Qaeda até sua trágica queda nos EUA e do caso dos piratas somalianos que mantiveram o Capitão Phillips como refém em alto mar) e o joga, literalmente, para o espaço! Afinal, pouco se sabe da Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock, numa inacreditável interpretação visceral) a não ser que ela tem que sobreviver praticamente sozinha (com alguma ajuda de um sempre carismático George Clooney) a um desastre num ônibus espacial – e apenas isto é o filme! Nada de coadjuvantes engraçadinhos ou maiores motivações forçadas: é o limite do ser humano testado em pouco mais de duas horas de tensão e adrenalina, sem introduções de costumeiros estereótipos ou maiores apresentações! E, no caso de Gravidade, some-se a isso a competência magistral do mexicano Alfonso Cuarón (surge um novo Kubrick?!), que, além de utilizar de forma ímpar os impressionantes efeitos gráficos numa inovadora forma narrativa, transformando o ato de ver seu filme numa experiência sensitiva (especialmente no original 3D: tecnologia a serviço de um grande filme), ainda incutiu nele sutis metáforas sobre a vida e a morte... Mesmo com seus defeitos e exageros (é ficção-científica; e não um documentário da NASA), um memorável trabalho!

E eis que o Oscar, apesar das injustiças globais, até que fez alguma justiça na distribuição das suas cobiçadas estatuetas douradas... E eu, que nunca fui muito da folia e mal vi a querida Mangueira entrar (o mais infame trocadilho do carnaval!) na avenida pela TV, fiquei dividido entre a americanada dos prêmios dos filmes que ainda quero ver e o colorido exibicionismo das belíssimas “crioulas” doidas de samba, suor e cerveja da festa momesca, prevalecendo, neste ano, o Cinema... Até vi outros bons filmes nos últimos tempos, mas, como em fevereiro os Morcegos só falaram de Cinema, deixo para abordá-los numa outra hora. E eis que o carnaval se acabou! E como o Brasil só começa, de verdade, a partir de agora, o melhor a fazer é arregaçar as mangas e criar um novo enredo para o nosso louco e sem fantasia cinema realista do dia-a-dia... Antes que o País entre em recesso até a chegada da Copa do Mundo brasileira, emendando com a festa pós-hexa (será?) até o verdadeiro filme-tensão do estandarte do sanatório geral que serão as eleições deste ano, com antigos blocos doidinhos para voltar para a primeira divisão... Jesus! 

Copa, Futebol, Olimpíadas, Eleições... Embora eu não mais perca meu tempo assistindo a nada da imund... digo, da vênus platinada, tomara que a Globo não compre os direitos de transmissão de tudo isso e siga única, em seu Império do Mal, a deter o monopólio da exibição, senão o povo só vai poder ver todo o resumo da ópera mal editado, "comentado" por "estilistas" e do jeitinho que eles quiserem – e dias depois de tudo encerrado! Ué... mas, pensando bem, e não foi sempre assim?!

Um solitário folião perdido no espaço ou um espectador global?

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