domingo, 28 de dezembro de 2014

Uma postagem praticamente perfeita em todos os sentidos...
Os Morcegos desejam a todos os blogueiros de plantão:
Feliz arte nova!

Do primeiro Natal desde que “me entendo por gente”, eu me lembro passando a noite da véspera na casa de tios e de ficar vendo por lá, sozinho e num quarto distante do resto da turba familiar, Um Milagre de Natal (de 1978), belo curta Disney sobre a amizade vivida por um menino e seu burrinho predestinado a fazer parte de um emocionante grande evento... Logo em seguida, a Globo exibiria a tradicional Missa do Galo, com um Papa João Paulo II então gozando de muito boa saúde, mas, como aquilo não possuía o menor atrativo para qualquer criança televisiva que se prezasse, pouco antes da meia-noite desliguei tudo e fui me juntar aos demais parentes – que não perderam a oportunidade de me chamar de “viciado” em TV, dada a ocasião especial de reunião familiar e eu, ali, “isolado”, assistindo a um filme...

O que eles talvez não soubessem é que aquela era, sim, uma forma pessoal minha de celebrar o Natal: vendo os especiais de fim de ano! Nada das baboseiras com os “artistas” famosos da minha infância, como a nada natalina Xuxa, mas, sim, das exibições temáticas que as grandes emissoras costumavam exibir no período das boas festas – e tome belos títulos antenados com a data, como Rei dos Reis (que também era passado durante a Páscoa), assim como, é claro, de inúmeros e fraquíssimos filmes irritantemente cheios de neve e com finais “edificantes” ou simplesmente “cheios de magia”, só porque tratavam de alguém ranzinza que precisava aprender uma lição sobre o Natal, no melhor estilo do eterno Scrooge, ou devido à sempre ilustre presença do Papai Noel no enredo (como o fraquinho, porém muito querido em minhas reminiscências, Papai Noel Existe)! De qualquer forma, o certo era que, naqueles tempos, todas as programações procuravam se ajustar da melhor forma aos cheirinhos de casa limpa, dos papéis de presente a descansar por sob os pinheirinhos de plástico e de muita comida gostosa no ar de cada lar...

Logicamente que nem todos acreditam ou celebram o Natal, seja por causa de uma crença não-cristã, seja por algum motivo pessoal, mas não há como negar que os simbolismos de um Cristianismo passado de geração a geração antes de nós acabaram por nos impingir uma necessidade sentimentalista de fraternidade e amor familiar intensificados a cada final de ano – e, com isso, terminamos por nos tornar mais sensíveis nesta temporada, apesar de todo o insuportável comercialismo que hoje predomina... O curioso é que esses mesmos elementos cristãos da festa, aos poucos suprimidos pelas grandes redes de comunicação, seja no banimento dos filmes temáticos de suas sessões especiais, seja na excessiva exposição a símbolos comerciais, como o Papai Noel da Coca-Cola (aquele de roupa vermelha e ar bonachão, baseado numa imagem do final do século XIX, mas usado pela empresa até hoje, por causa da coincidência das cores, e bem distante do São Nicolau legendário), seja inclusive por meio da imposição do fascínio por outros forçados simbolismos importados, como a famigerada neve (que, mesmo nos EUA, não cai em todo o território!), parece fazerem hoje, ainda que de uma forma inconsciente, uma falta danada...

Não digo que se devam exigir representações de Jesus e seu nascimento a torto e a direito, até porque acredito que o Natal, embora criação católica em homenagem à vinda de um messias, já tão presente no inconsciente coletivo, seja, em sua essência, uma festa com espectro maior até do que o próprio representado e alimente sentimentos humanistas inclusive em pessoas não-religiosas – sem olvidar que ainda resta a incômoda sensação de que “os direitos” deste belo e independente personagem pertençam hoje aos insanos representantes das cada vez mais poderosas igrejas pentecostais (e, vindo delas, é sempre temerosa qualquer versão cinematográfica em tempos tão reacionários)... Mas é inegável o quanto a falta do tom de “época especial” não só deixa cada vez mais desencapado o desespero do lucro certo com as vendas de presentes, comidas e bebidas – e como isso incomoda... –, como também eliminou das exibições televisivas, tanto das agressivas redes abertas e suas vazias representações novelescas como as TVs por assinatura e suas cansativas maratonas de seriados repetitivos, a possibilidade de qualquer exibição especial, mesmo que fora da temática natalina.

Assim, grandes títulos como Ben-Hur, O Milagre da Rua 42, O Manto Sagrado e A felicidade não se compra – que, direta ou indiretamente, tinham elementos cristãos ou natalinos em seus enredos – foram, aos poucos, facilmente esquecidos pelas programações, com o passar do tempo, até sua quase total eliminação... Tal como os sempre antes reprisados nesse período, Cantando na Chuva e Mary Poppins, que, embora nada tivessem com as boas festas, eram filmes pra lá de especiais e, dignamente reprisados nesta solene fase do ano, sempre preenchendo bem e de forma elegante o espaço entre a festança coletiva da meia-noite e a solitária hora de dormir, quando os festejos aconteciam em casa, com todos já tendo se despedido e eu lá, com as presenças mágicas daqueles dois musicais fantásticos, repletos de canções e números inesquecíveis... Ah, que maravilhosas lembranças eu possuo daquelas sessões madrigais: foi desse jeito que vi, pela primeira vez, cada um desses dois clássicos! Tanto que já lhes dediquei um apaixonado 'post' aqui, quando da época em que os mostrei à minha amada filha Isabela! A propósito, a incrível versão Disney da babá praticamente perfeita em todos os aspectos chega, neste 2014 que se finda, ao seu quinquagésimo aniversário!

Como o tempo voa... E, no caso dela, literalmente: 50 anos de Mary Poppins... Do filme, porque, da personagem dos livros, já se vão 80 anos desde a publicação inicial do primeiro de uma série de oito livros – todos bastante modificados em sua essência para "se ajustarem" aos padrões Disney de entretenimento, incluindo aí, dentre outras coisas, sintetizar ao máximo várias passagens da história, reduzir a frieza da aventureira babá mágica e convertê-la na beleza doce e encantadora de uma então estreante no Cinema (Julie Andrews), ampliar a participação do personagem Bert (vivido por Dick Van Dike, com quem se insinua um romance para Mary), cortar os personagens dos bebês gêmeos dos Banks – que, por sua vez, ao contrário do livro, viraram burgueses... Engraçado é que, mesmo com tantas alterações, o musical infantil ficou delicioso, figurando certamente como o melhor dos trabalhos com atores reais daqueles estúdios! Muito gentil a senhorita P. L. Travers (Pamela, ou, de fato, Helen Lyndon Goff), autora dos livros, que permitiu que o Sr. Disney fizesse tantas alterações em sua obra, não? 

Muito pelo contrário: ciente das famosas "alegorias" infantilizadas do famoso cineasta/produtor do Mickey Mouse, a perfeccionista australiana radicalizada inglesa negou, por mais de duas décadas, a venda dos direitos para o opressivo estúdio norte-americano, que só conseguiu seu intento depois de uma generosa oferta diante da quase bancarrota da escritora, quando da baixa venda de seus livros ao longo da década de 50... Apesar disso, ela conseguiu ser firme e bancou a durona em várias cláusulas contratuais rigorosas, na tentativa de controle na adaptação de seus personagens tão caros: ficaram memoráveis as suas brigas com o departamento de criação (os geniais irmãos Richard e Robert Shermann, e o corroteirista Don DaGradi), que com ela eram obrigados a tratar, linha por linha, de mínimos aspectos, das canções ao roteiro – era expressamente proibido, por exemplo, que houvesse qualquer animação, uma das principais razões do seu longevo veto a Disney... Nem é necessário dizer que o bandidão reaça do Walt venceu a queda de braços e à Pamela só restou ter de engolir um sem-número de concessões e chorar de raiva ao ver, na noite da estreia (para a qual sequer foi convidada, depois de tantos desentendimentos, pelo deselegante Walt Disney), a bem longa sequência animada de inúmeros bichinhos saltitando com Mary, Bert e as crianças nas pinturas do parque!

Engraçado... Essa história parece até enredo daqueles "filmes edificantes" de final de ano! E não deu outra (apesar de ter demorado um bocado para ter sido feito): logicamente que o império do entretenimento do faz-de-conta aproveitaria todos estes ricos ingredientes de bastidores em torno de um dos seus filmes mais queridos e lucrativos (Mary Poppins foi, disparadamente, o campeão de bilheteria de 64 e gerador de muitas outras adaptações com suas adoráveis canções, como dois musicais teatrais recentes) e assim foi lançado, em 2013, o interessante Walt nos Bastidores de Mary Poppins – o título original, Saving Mr. Banks, algo como "Salvando o Sr. Banks", além de inviável comercialmente por aqui, sequer lembraria o grande público brasileiro de que se tratava de algo relacionado ao popular musical dos anos 60 (mas, ok, tirassem o "Walt", que ficaria bem melhor...).

Sim, interessante: ao contrário do que bombardearam os críticos, trata-se de um bom filme, capaz de contar fielmente os fatos ocorridos e, ao mesmo tempo, florear bastante do que realmente aconteceu e, de quebra, homenagear tanto o finado e eterno patrão como também a irritantemente "notável capacidade Disney de dobrar as pessoas mais empedernidas com a magia dos seus estúdios, parques e personagens" –  ou só e tão somente "como o dinheiro pode mesmo comprar tudo no 'showbiz'...

Sem dúvida, a gloriosa Sétima Arte ajuda a tornar uma época especial, a eternizar um momento e a fotografar sequências de nossas vidas e as elevarem à parte de algum filme mágico visto nalgum ponto inesquecível – ainda mais quando se trata de uma obra com um pano de fundo tão adequado ao período. Mas como nem só de pão e Cinema vive o homem, não há igualmente como não se emocionar com certos cantores e compositores que tornaram tantos Natais e viradas de ano mais relevantes em nossas fatigadas recordações. E nem falo do tradicional "Rei"... Afinal, seus especiais globais foram incontestavelmente marcantes em priscas eras de quando a maior parte de seu repertório era boa, mas, dados os últimos pífios e burocráticos "cumprimentos de contrato", com discos anualmente ruins e programas piores ainda, eu não "reprisaria" Roberto Carlos atualmente de jeito nenhum! Prefiro nomes maiores e mais consistentes e coerentes com suas obras, como os que, coincidentemente (nada é por acaso...) descobri em Natais passados: João Gilberto, Frank Sinatra Dorival Caymmi – sendo este último digno de todas as homenagens neste 2014 de seu centenário! Tudo bem que ele jamais tenha sido esquecido, mesmo após anos de sua morte, graças, em boa parte, aos seus talentosíssimos filhos que mantêm a obra do imortal pai eternamente acesa em interpretações magnânimas (especialmente as da diva Nana), mas é preciso que o Brasil e o mundo saibam mais da dimensão que foi Caymmi, cuja obra aparentemente simples, sobre gente simples e coisas de sua terra, é recheada de um perene lirismo ímpar jamais alcançado por Ary Barroso algum sobre nossos pescadores e nossas "brasilidades" e "baianidades" mais legítimas! Viva Caymmi, de quem costumava chorar, em minhas costumeiras audições musicais natalinas, Suíte do PescadorTemporalSaudade da BahiaO Mar...

Mas não há nada mais musicalmente natalino pra mim do que a deusa Marisa Monte: primeiramente, um dos meus natais passados ficou marcado pelo disco Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão, quando descobri, ainda na adolescência, essa mulher que parece dublar uma voz vinda de outra dimensão, naqueles arranjos mágicos (sua própria voz como um dos muitos instrumentos musicais) por sobre Música contemporânea cheia de um antigo e já quase perdido lirismo brasileiro antigo de samba e choro... E, recentemente, uns dois anos atrás, com o então lançamento do disco Verdade, Uma Ilusão, meu 'reveillón' foi marcado pelo branco alvo daquelas interpretações multicoloridas, presente que ganhara da companheira Jandira... E, hoje, com o DVD do 'show' homônimo, que tantos prazeres me proporcionara quando da sua vinda a São Luís, no ano passado, com aquele deslumbre de cores e músicas da melhor qualidade (ela dança, ela embriaga com aquelas mãos e braços finos, ela compõe, ela toca, concebeu o espetáculo inteiro e ainda conversou bastante com a plateia!), eu presenteei tanto minha amada esposa quanto minha querida mãe Dilena numa só cajadada: a emoção eu deixei pra elas, para marcá-las! Pena que o DVD fique anos-luz aquém da força de beleza que foi esta turnê incrível – pobreza no detalhamento dos belíssimos efeitos de projeção no 'show' e total eliminação da interação da cantora com seu público conseguiram transformar algo fascinante em parcamente bonito na tela pequena, em casa...

Mas há quanto não paro pra ouvir boa Música ou ver um grande filme... É só correria para botar o mínimo de trabalho e organização em dia juntamente aos meus dois maiores presentes gêmeos de 2014, Isadora e Dilberto Filho, e à minha Princesa Isabela – com quem tenho acompanhado, quando dá, alguma coisa dos últimos lançamentos tidos como "infantis", obviamente, das princesas Disney, como os bonzinhos Enrolados e Frozen: esses acabaram sendo os meus "filmes especiais" deste fim de ano (poxa, eu bem que merceia mais que isso...)! Mas, falando em Arte, acho que até em bons Quadrinhos se pode encontrar a "salvação": eu bem me lembro da inesquecível emoção ao ler uma das melhores graphic novels com meu herói favorito, Batman, num Natal de muitas eras atrás (evento sobre o qual também já narrei aqui) e inúmeras outras revistinhas adquiridas em perdidos dezembros deram a tônica de ótimas lembranças... Infelizmente, até nisso o tempo agora me foi carrasco, e, nesta última semana de 2014, onde lamento o não ter tido minha quota de arte revigorante para o novo calendário que se inicia logo, logo, tal como costumava fazer no passado, igualmente me queixo das HQs que terminaram por cair em minhas mãos e que deixarão um amargo gosto de fim de festa, culpa da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, que, por lançar não os melhores arcos daquela editora (salvo boas exceções), mas as mais vendidas ou badaladas histórias, acabou por me obrigar a comprar (e ler!) bobagens como Planeta Hulk e Zumbis Marvel, que li neste derradeiro mês, entre um mingau e um cochilo, unicamente para completar a coleção e manter intacto o mosaico a ser formado pelos dorsos de todas as edições...

De Literatura me espera toda a série histórica de Laurentino Gomes, 1808, 1822 e 1889, que comprei recentemente e não pude, sequer, folhear... De colecionáveis, nada há para marcar, uma vez que as editoras enlouqueceram e, a cada semana, despejam dezenas de lançamentos e relançamentos – e eu, a contar os pobres caraminguás da carteira furada, sacrifico os últimos vinténs com pelo menos umas 8 miniaturas a cada mês... De Fotografia, falta imprimir os "trabalhos artísticos" que venho realizando ao clicar meus adoráveis 3 filhos no dia-a-dia... Tudo isso me lembra o subtítulo deste dileto espaço virtual, "Artes em Geral": há mais de 10 anos me encontro neste sagrado ofício de falar delas em meio ao turbilhão da vida, que segue como se quisesse nos tragar a todos, já quase desalmados, para uma espiral desgovernada, independente da época ou da geração em que estejamos! Mas uma coisa é certa: cada um que encontre logo seu caderninho de recordações e converse com seu fantasma dos Natais passados para descobrir alentos perdidos enquanto é tempo... Pois cada um traz consigo a dor e a delícia de uma passagem secreta para a salvação durante aquela ceia mais burocrática entre parentes coxinhas, afáveis somente naquele momento entre o peru, as cervejas, o vinho e as castanhas, todos cheios das inócuas "resoluções de ano novo"! Acho que por isso eu encho as minhas boas festas de um pouco de contato comigo mesmo e com as coisas que amo: ver um bom filme, ouvir uma boa Música e, agora, estar embolado junto à arte das minhas crias criam, de per se, enredo dos melhores para recarregar qualquer bateria às vésperas da tão festejada mudança de calendário! Que venha 2015, que nós mostraremos a eles – vocês, que tão bem pintam o sete – com quantas artes se faz um ano, não é mesmo crianças?!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

30 Anos de Caça a Fantasmas...


Ah, o meu primeiro contato com os inigualáveis "Três Mosqueteiros do Sobrenatural" (Winston Zeddemore/Ernie Hudson, o "quarto caça-fantasma", era menos que um "Dartagnan negro" na sua substituição a Eddie Murphy): foi quando vi, pela primeira vez, a foto acima, que faz parte do pôster original do filme. Estava com meus 10 anos de idade, ao lado de um grande amigo da infância, Ricardo Alexandre, que, assim como eu, seguia maravilhado por aqueles mágicos anos 80 e comigo compartilhava a densa e jovial criatividade artística daqueles anos multicoloridos, e, numa das nossas voltas pra casa (morávamos no mesmo bairro e eu vinha de carona com sua família), folheávamos uma revista de seu pai, achada no carro, quando ele deságua a me deixar cheio de curiosa inveja diante da tal foto – Ah, eu já vi esse, Caça-Fantasmas, é muito bom, de verdade: papai já alugou algumas vezes no videoclube Tropical e é massa... Como nessa época ainda não possuía aparelho de videocassete em casa (só teria esta então maravilha da tecnologia uns dois anos depois, em 89), tudo o que conhecia sobre Cinema era o que a Sessão da Tarde, Tela Quente, Temperatura Máxima, Sessão das 10 ou o SuperCine ou o Cinema em Casa permitia, e, assim, cada informação sobre aquele filme, que realmente prometia bastante, era uma atração em si...

Especialmente porque já era um sucesso o desenho animado Os Caça-Fantasmas (The Real Ghostbusters, para diferenciar dos GhostBusters, da Filmation, espécie de continuação de uma série dos anos 70, bem diferente) e era legal descobrir que o filme no qual se baseara a já popular atração do Xou da Xuxa era bem mais “adulto”, até com pitadas de “Terror” – Não tem esse tanto de bichinhos bonitinhos e coloridinhos, não: é bem melhor! O Geleia, por exemplo, é meio do mal... E não, o Egon não tem cabelo loiro e esse do meio aí na foto não é o Ray; é o Pete! O Ray, que nessa foto 'tá parecendo com o Peter dos desenhos, é o da direita! Caramba... Pra uma mente já embasbacada pela magia de inúmeros clássicos instantâneos que surgiam aos borbotões em tempos de Caçadores da Arca Perdida, Os Goonies, Krull e Conan - O Bárbaro, e por já ser fã dos personagens animados, todos aqueles relatos e descrições só me enchiam ainda mais de vontade de que alguma emissora passasse logo aquela coisa genial!

Mais ou menos um ano depois, meu segundo contato foi com a famosa canção-tema, de Ray Parker Jr. (que seria acusado de plágio por Huey Lewis, compositor da igualmente indicado ao Oscar The Power of Love, de De volta para o futuro) – que também tocava no desenho: o ‘hit’ Ghostbusters! Assim, passeando com minha descolada jaqueta ‘jeans’ pelo Tropical Shopping (o Tropical de novo, primeiro, único e recém-inaugurado centro comercial da Ilha, com a respectiva primeira videolocadora), encontrei um colega do colégio, Fábio, que, levando-me a entrar pela primeira vez numa loja de discos (meus dois únicos LPs na época eram A Turma do Balão Mágico e Xou da Xuxa Vol. 2, comprados por minha mãe por causa dos modismos de alguns anos antes: eu não era nada ligado a Música), ajudou-me a descobrir duas coisas maravilhosas: a primeira, o LP O Melhor do Oscar Vol. 2, que continha, entre outras pérolas do cinemão oitentista, os temas de Top Gun, Footloose, Flashdance, A Força do Destino e, é claro, Os Caça-Fantasmas; a segunda, que era possível você entrar numa loja para ouvir, com fones de ouvido numa cabine e de graça (sem abusar, é claro...), os discos de sua preferência!

Desde aquele acorde de guitarra inicial (ou seria um sintetizador?), que imitava um gemido fantasmagórico, passando pelo inconfundível tema-chiclete que cobriria a canção por inteiro (pan-pan-pan-pan-pan-pan... Ghostbusters!), até chegar aos inconfundíveis chavões criados pelo filme e repetidos à exaustão ao longo da música, quase como um mantra ‘nerd’ (Who ya gonna call? – “Quem vocês vão chamar?” e I’m not afraid of no ghost – “Eu não tenho medo de fantasma nenhum"), apesar da rotação mais lenta que o normal daquele disco, aquela canção meio que mudaria minha vida... E não digo isso simplesmente pelo fato de ter perdido a hora e só ter percebido que o meu colega havia há muito deixado a loja quando o gerente passou a esmurrar o vidro para que eu saísse da cabine, pois estavam quase para fechar (eu abusei... E pior: não comprei disco algum!)! Digo, sim, porque, a partir de então, passei a ligar para rádios locais a fim de gravar aquele assombro (que trocadilho...) numa fita k-7 e repeti-la à exaustão, para desespero dos meus pais e dos vizinhos... O meu interesse por Música, especialmente a ‘pop’ norte-americana, aflorara com força total e o meu desejo em ver o longa, a partir desse episódio, começou a beirar a obsessão! Até que, no final daquele 1987, eu me estremeceria ao ver a chamada Cinema 88, onde a Globo, finalmente anunciava Os Caça-Fantasmas para o ano seguinte (dois segundos na tela, em meio a dezenas de outros inéditos prometidos, mas duração de sobra para me consumir de expectativas)...

E como era de praxe com a maldita “Vênus Platinada”, que sempre reservava seus medalhões cinematográficos mais para o final do ano, eu acabei tendo de esperar chegar quase o final de 1988 para ver, pela primeira vez, o que vários amigos já haviam visto e me contado desde a sua estreia no Brasil, em dezembro de 84... Mas, confesso, a espera valeu a pena: tudo era, simplesmente, genial! De cara, fiquei boquiaberto com a sensacional abertura sem diálogos, que segue cheia de suspense até seu assustador final, com o desespero de uma pobre bibliotecária e o surgimento do icônico símbolo do fantasminha proibido junto ao título do filme, abrindo o espetáculo ao som da canção-título; morri de rir com as tiradas do trio cômico formado pelos doutores cientistas e aventureiros da Parapsicologia, o cínico sedutor Peter Venckman (o impagável Bill Murray, hoje 'cult' e voltado para o Cinema independente/autoral), o infantilizado Ray Stantz (Dan Aykroyd, de quem já era fã por causa de outro clássico dos anos 80, Os Irmãos Cara-de-Pau) e o compenetrado Egon Spengler (um ainda quase desconhecido ator/roteirista Harold Ramis), gentilmente dublados pelas mesmas vozes brasileiras correspondentes no já famoso desenho animado; e, em meio àqueles impressionantes efeitos especiais, achei a história toda incrível, ao misturar um monte de conceitos reais sobre o paranormal a uma assustadoramente divertida invasão de criaturas do além para dominar o nosso mundo, começando por Nova Iorque – não tinha jeito: virei fã incondicional! Agora só faltava encontrar algum outro fanático com quem pudesse dividir a loucura... E, curiosamente, seria a descoberta de um amigo num velho conhecido!

O ano, enfim, era 1989, e eu, nos 11 para 12 ao longo do meu sexto ano, já nem me lembrava de que o conhecia desde aqueles cheios de expectativa 10 anos de idade, na época em que, bem diferente da carona na volta pra casa, a minha ida para o colégio era num ônibus escolar velho, sempre atrasado por pegar um monte de alunos na cidade quase toda e, “de quebra”, quebrar quase todo dia pelo caminho, condução que ele também tomava, algumas vezes, para ir à escola, mas com quem não trocara nada além de algumas palavras soltas, sem aprofundamento ‘nerd’ algum. Entretanto, foi só o “novo integrante” aportar na minha turma, depois da extinção da sua sala e o consequente "repatriamento" na minha, para que a química fluísse tão bem quanto no famoso trio de pesquisadores paranormais do Cinema! O próprio nome lembrava os dos personagens: Henrique Spencer! Porém, apesar do sobrenome "gringo", ele mantinha mesmo era o velho sotaque pernambucano de origem e uma paixão maior do que a minha e do meu antigo amigo Ricardo somadas, em nossa incipiente "nerdice". Afinal, o cara era "profissional": cartazes gigantes de pérolas como A Hora do Pesadelo, O Exterminador do Futuro e Robocop, ao lado de inúmeros outros grandes nomes da melhor Ficção/Fantasia daqueles tempos, cobriam todo o pé-direito de seu quarto (cortesias da mais que saudosa revista VideoNews – que, dentre outros mimos igualmente preciosos, também me deu a oportunidade de imitar aquele amigo com réplicas de pôsteres de lançamentos "cinco estrelas" da época, como Indiana Jones e A Última Cruzada, assim como do grande leão da Metro, ambos rasgados "acidentalmente" por meu pai, que detestava "casa de barbeiro")! Isso sem falar na enorme estante repleta de fitas VHS – Na 'verdadde', 'videocassette' 'mexmo' é o que chamam dde fita; o 'eletrodoméxttico' é o 'aparelho de 'viddeocassette' ou 'VCR' – explicava-me o sempre professoral companheiro, com seus característicos 'd's e 't's dobrados.

Caça-Fantasmas?! LÓGICO que eu adoro! – deve ter respondido Henrique, algum dia, quando o assunto veio à tona pela primeira vez, mas é lógico que eu jamais lembraria quando isso se deu ou como primeiramente abordamos um tema que nos seria tão caro... Com certeza, depois da descoberta dos inúmeros interesses em comum e de alguns bons diálogos sobre BeetleJuice e A Hora do Espanto (em cuja gravação em vídeo ele me ensinou as primeiras noções de "edição", ao me mostrar como se gravava um filme pela TV, sem evidenciar os cortes a não ser pelas reiteradas inserções da emissora nos números das "partes"), a deliciosa mistura de Comédia e Fantasia de 84 seria o nosso maior assunto ao longo do ano! E haja tempo para botarmos todos os nossos baculejos em dia: "Não cruzem os raios!", "Esvaziem as mentes, não pensem em nada!""Ninguém pisa uma igreja da minha cidade!" e tantas outras citações cheias de entusiasmo adolescente eram um pouco da tônica daquelas farras nos recreios e de suas inevitáveis continuidades nas conversas intermináveis durante as aulas subsequentes – e, com isso, meus primeiros puxões de orelha pelos professores...

Tudo era motivo para estarmos a rediscutir nossa idolatria: desde a possibilidade da construção de um real feixe de prótons (só de papelão, num projeto que ele tinha desenhado), passando pelo maravilhamento pela trilha sonora (excelente mescla de 'hits pop' da época com os adoráveis acordes cheios de horror cômico do saudoso Elmer Bernstein) e pelos efeitos especiais do filme (o Geleia, de tão simples, era um dos mais incríveis bonecos manipuláveis já feitos, numa época ainda distante dos cansativos efeitos digitais de hoje), até o "estudo" dos "fenômenos" observados na porta da biblioteca (opa!) da escola, no corredor de saída da nossa turma, que depois mostrou a realidade por trás dos insistentes movimentos que a porta frouxa fazia na base do cadeado: uma corrente de ar desconhecida por todos, vinda de frestas de uma persiana escondida, porém sempre aberta, era a real responsável pelo vai-e-vem da porta, e não um fluido errante de alguma bibliotecária falecida – Não, não: é fantasma, sim: as janelas da biblioteca ficam todas sempre fechadas...

Decididamente, Henrique e eu éramos os Caça-Fantasmas da sexta série... Desenhos à exaustão dos fascinantes personagens, tanto do desenho como em 'live-action' (que, inclusive, tive a pachorra de ofertar a uma antiga paixão platônica) e adesivos com a famosa logomarca com o fantasminha eram a coisa mais comum em nossos cadernos e blocos de desenho! Muito antes das facilidades da internet e do Google, enchíamos a paciência da professora de Inglês para que "tirasse a letra" de Ghostbusters e a traduzisse para nós! Éramos mesmo consultados em nossos "conhecimentos do paranormal" por alguns amigos mais próximos – só nunca pudemos explicar por que o Ray precisava de óculos especiais para ver espectros, se todo mundo do hotel podia ver o Geleia (independente de mediunidade)! Tudo ia bem naquele período idílico até que, tal como na famosa frase do filme, nós descobríamos que não estávamos preparados pra isso: o banho de água fria no excesso de expectativas em torno de um dos maiores lançamentos do ano de 89 (depois de Batman, é claro, com outra paixão em comum que surgiu na época, a batmania) nos acordou do sonho de que toda aquela magia cinematográfica duraria pra sempre: Caça-Fantasmas 2, que só veríamos, em péssimas cópias piratas, no ano seguinte, em 1990, foi mesmo uma grande decepção...

Certo, os nossos personagens favoritos estavam lá, "5 anos depois" – exatamente como na vida real (1984/1989) –, com a mesma química e muitas piadas divertidas... E o que estaria faltando? Bom, essa continuação é uma cópia escancarada do primeiro, tanto no formato como no enredo, como um todo: a abertura com suspense (lembra a velhinha bibliotecária? Agora é a Dana Barrett/Sigourney Weaver tentando salvar o filhinho no carrinho endemoninhado); a apresentação dos personagens, agora heróis esquecidos ou em baixa, e, depois, tornando-se populares novamente após uma grande "apreensão" espectral (os irmãos Scoreli no lugar do Geleia, que ficou bonzinho); vilão demoníaco toma, por possessão, um ser fraco a fim de dominar o mundo (sai Gozer e entra Vigo; sai Louis/Moranis e entra Janosz/MacNicol); e, no final, ser gigante invade Nova Iorque e toda a confusão acaba em meladeira (Stay Puft substituído pela Estátua da Liberdade e gosma "do bem" no lugar de 'marshmallow'!)! Caramba... Esqueceram de Mim 2, e seu esquemão idêntico ao primeiro, perde, viu?

E o pior é que a vergonha alheia por aquela trupe tão admirada estar se repetindo na telona, a decepcionar uma legião assustadora de fãs (olha o trocadilho infame aí novamente...), sem quase criatividade alguma para tocar um projeto tão aguardado, não ficou apenas em relação aos mais que queridos Caça-Fantasmas: juntamente a eles, uma enxurrada de obras fraquíssimas veio na mesma leva de repetecos caça-níqueis das fórmulas de sucesso dos primeiros filmes ou em reinícios com infantilizações das tramas iniciais, igualmente manchando a história da Fantasia oitentista e cuspindo na memória afetiva de tantos aficionados, em filmes que jamais fariam jus aos clássicos originais, como Gremlins 2 e Robocop 2! Começavam os frios, sem magia e artisticamente reciclados anos 90, e Hollywood só viria a se redimir exatamente 10 anos depois do último bom suspiro dos anos 80, Batman (e olhe lá...), com Matrix O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, ambos de 1999. E olha que, em 1997, todo mundo dava como certo de que a recém-lançada série de desenhos animados televisivos Extreme Ghostbusters, seria a base para um ótimo retorno aos cinemas, com um terceiro e renovado filme da série, com os antigos heróis do sobrenatural passando o cetro e apenas guiando uma nova trupe de cômicos cientistas – mas essa ideia bem razoável acabou sendo abandonada pelo caminho: era a meca cinematográfica norte-americana e o próprio tempo se encarregando de apor freios naqueles meninos sonhadores – e o grande companheiro de caça a fantasmas igualmente se despediria...

Nós fomos capazes de tantas coisas, desde fazer 'takes' com as mãos a enquadrar a fachada da Biblioteca Benedito Leite – que, só bem remotamente, lembrava a famosa Biblioteca de NY, da abertura... –, assediar uma bela mocinha mais velha no colégio para que ela vivesse a secretária Janine Melnitz para um "filme" que faríamos, um dia, pela nossa HD Produções (chupa, Hawaiian Dreams!), até "inventar" de fazer um robô para a Feira de Ciências, com direito aos barulhinhos do nosso igualmente querido Robocop (o que acabou ficando só na vontade de uma super-equipe de 22 integrantes pra nada)... Mas não conseguimos deter o momento no roteiro reservado às despedidas: logo depois da mudança para outra turma na nossa escola, em 1990, onde se encontrava um número maior dos seus antigos "expatriados", em 91 Henrique voltou para a sua amada Recife e perdemos, completamente, o contato; Ricardo mudou de escola e, apesar da proximidade geográfica na vizinhança, o ritmo da amizade também foi arrefecendo ao longo da década adolescente... Restava falar de Cinema de forma mais crítica e artística com amigos concretizados no colégio desse período, como Sérgio Ronnie, com quem tive que engolir junto, depois do fim da VidoNews, as baboseiras de uma Set em final melancolicamente 'teen', assim como com ele também teci longas elucubrações sobre grandes cineastas, como Fellini, Truffaut, Kurosawa e Nelson Pereira dos Santos – o que terminou nos levando à composição de um cineclube e um programa de rádio sobre a Sétima Arte, O Clube dos Amantes do Cinema, e de conduzir este humilde escriba que vos fala a aceitar a proposta da igualmente amiga dos agora findos tempos de escola, Adriana Bello, de escrever um blogue, no começo dos anos 2.000, sobre meus assuntos favoritos: "artes em geral" (blogue este que reaproximou o hoje cineasta Henrique, graças aos rencontros proporcionados via internet) – e o resto é História...

História essa que escrevemos – ou, ao menos, tentamos escrever – com a afetividade repleta de referências de uma era em que os dias eram mais inocentemente preenchidos por magia e fantasia, ao contrário dos excessos cinicamente realistas deste século/milênio na arte cinematográfica, em qualquer gênero... Reflexo dos novos tempos ou foi toda uma geração que cresceu? Nunca saberia dizer. Claro que se trata de um "endeusamento infantil" de recordações boas, uma vez que, em termos de Cinema, Caça-Fantasmas até resiste como uma inteligente Comédia de Ficção Científica, porém perde feio para inúmeros outros títulos em profundidade e linguagem cinematográficas, como Amarcord e Oito e Meio, só pra citar meus dois filmes favoritos e duas preciosidades artísticas do genial Fellini – tanto é assim que Caça-Fantasmas sequer consta na lista dos meus 50 melhores... Mesmo porque a proposta nunca foi essa: como disse o próprio Aykroyd numa antiga entrevista – É o nosso jeito de fazer os antigos filmes cômicos de fantasmas; é o Abbott e Costelo do nosso tempo... Perfeito! Acrescentem-se a essa tese de "filme de geração" as inteligentes pitadas de Horror e tecnologia (poder nuclear pra "pegar" fantasmas: absurdamente engraçado!), típicas da "reinvenção das antigas matinês" feita nos anos 80 e tão bem encaixadas na trama, e temos um legítimo filme que marca uma infância/adolescência e se perpetua para todo o sempre...

Assim é que, mesmo com tantos títulos grandiosos completando redondos aniversários neste 2014 (como, mais recentemente, os 40 anos da obra-prima das continuações, O Poderoso Chefão Parte II) e com o recente lançamento de algumas boas adaptações de Quadrinhos entre as já cansativas dezenas de fracas produções de Super-Heróis lançados a todo instante nos dias atuais, na primeira oportunidade existente o lado afetivo ainda grita Ghostbusters na memória, tal como se eu estivesse novamente diante de meu amado JVC 4 cabeças a reproduzir esse filme pela sexagésima-tanta vez (parei de contar na quinquagésima...), na minha antiga gravação no global Festival 25 Anos... E assim tantos outros clássicos fantásticos, presos na retina das centenas de repetições no aparelho de videocassete, como Superman - O Filme (do qual até hoje sei quase todos os diálogos), Indiana Jones e O Templo da Perdição e O Império Contra-Ataca – esse mesmo bastante superior como Cinema, base para qualquer grande trilogia que se preze, como O Senhor dos Anéis, e, não por acaso, igualmente um dos favoritos do amigo Spencer, tal como gosta de afirmar, levou-o a querer trabalhar com Cinema. Caça-Fantasmas, porém, segue imbatível em minhas recordações pelo número de tempo e de coisas a ele ligadas...

E, apesar das tantas más notícias envolvendo uma tosca nova parte 3 para os maiores caçadores de entidades sobrenaturais (chupa, Supernatural!) – primeiro era Bill Murray que não aceitava, de jeito nenhum, voltar a usar as famosas mochilas de prótons; depois, morreu o bom diretor de uma rara exceção mágica de 93, o pequeno clássico Feitiço do Tempo (com Murray), Harold Ramis; e agora, resta aparentemente fechado para que um elenco feminino de comediantes substitua os 4 rapazes num filme que pouco teria com os personagens originais e com o ex-diretor Ivan Reitman, que apenas produzirá –, em vez de ficar caçando os fantasmas do que deixou de ser feito, como uma continuação realmente à altura daquela pequena obra-prima dos anos 80 ou o avanço nalgum sonho que nunca vingou entre esses quatro caça-fantasmas do saudosismo, realmente prefiro o novo tempo dos meus filhos, todos bastante ávidos por (re)ver com o pai não esses incômodos 'reboots', que andam pululando por aí a enterrar passados gloriosos, ou os intermináveis 'remakes' atuais para grandes filmes de outrora (até clássicos recentes andam entrando na roda!), mas, sim, a boa e velha chama dos tempos do seu papai, que hoje, graças a Deus, não pede pra esperar e pode ser revivida a qualquer hora de maneira bem mais cheia de definição e segura de se guardar – saem os mofados VHS com suas gravações cheias de ranhuras na imagem e barulhos no som e entram os DVDs, BDs HDs com terabytes de armazenagem para guardar a melhor das resoluções (4k, não é isso, diretor Spencer?), tudo fresquinho, diretamente baixado de algum site de L.A. para a minha casa via torent! O danado do fantasma a caçar agora é o diacho do tempo, infernalmente ligeiro, sem chance de reprise, mas que não para de passar...

  E aí, gurizada: quem vocês vão chamar? Eu! Afinal, definitivamente, sou um Caça-Fantasma!
Não são os meus três filhos, mas bem que eles poderiam descolar essas fantasias maneiras, né?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Cinquentões em Patópolis...

Peninha ganha edição comemorativa de 50 anos
Decididamente, eles são brasileiros!

O que os patopolenses Urtigão e Peninha têm em comum? Além do fato de terem sido criados para serem coadjuvantes nos Quadrinhos do Pato Donald por dois artistas norte-americanos da Disney, Dick Kinney (roteiros) e Al Hubbard (desenhos), ambos, de tão divertidos, acabaram tornando-se protagonistas e se deram muito bem em terras brasileiras, onde protagonizaram, por muitos anos, revistinhas próprias  embora permaneçam, até hoje, como ilustres desconhecidos para a maioria do público nos Estados Unidos... Mas se engana quem pensa que algum deles é vizinho do Zé Carioca em algum ponto do idílico Rio retratado na Vila Xurupita: eles nasceram mesmo "gringos", contracenando com os famosos patos de Duckburg (por aqui, conhecida como Patópolis), mas, como faziam parte de uma linha de personagens secundários visando ao mercado exterior (Peninha, por exemplo, estreou na Europa e, só um ano depois, surgiu nos EUA), foi mesmo na Itália e, mais especificamente, no Brasil, que esses adoráveis marginalizados estouraram em sucesso!

Marginalizados, sim: afinal, como é que um esquentado caipira montanhês descendente de irlandês (por isso, em sua origem, Urtigão tinha cabelo e barba vermelhos, que "viraram" brancos por erros de impressão fora dos EUA) e completamente averso ao "mundo civilizado", e um atrapalhado cultuador do alternativo estilo meio hippie/meio beatnick dos anos 60, poderiam pertencer a algum mainstream? Não é à toa que os dois se cruzariam em inúmeras e excelentes historinhas desde o seu primeiro ano de existência, em 1964: apesar de tão díspares, eles sempre falaram a "mesma língua"! Língua essa que também se converteu no "mineirês" uai e em outros tantos trejeitos caipiras de ser do nosso homem do interior, assim como se transformou no endividado repórter de A Patada, porém cheio de referências bem brasileiras (adoráveis os trocadilhos com ícones da cultura nacional) e de histórias repletas de paródia pra contar  não à toa, foi por aqui que surgiu o maior guardião dos Quadrinhos Disney: o Morcego Vermelho ("Bandidos, tremei!")!

E a Editora Abril não se fez de rogada com o sinal verde da Disney para a produção local de historinhas  especialmente do Peninha, uma vez que o Urtigão só deslanchou mesmo com "personalidade brasileira" quando do lançamento de revistinha própria, em 1987 (antes, só os desenhos eram brasileiros, para roteiros feitos fora). Com isso, grandes nomes cheios de criatividade, como os dos roteiristas Ivan Saidenberg (criador da espevitada namorada Glória nas HQs do Peninha) e Gerson Teixeira (criador da Firmina, parceira para toda obra do Urtigão), bem como os desenhistas Carlos Edgar Herrero (também famoso por seu trabalho com Zé Carioca), Luiz Podavin (autor da bela capa do almanaque mostrado acima, com um divertido e inusitado selfie), Irineu Soares Rodrigues (que trabalhou com os dois personagens), Euclides Miyaura, Verci de Mello e Eli Leon (definidores do perfil caipira Made in Brazil do camponês), eternizaram-se  nas memórias dos ávidos leitores dos anos 70 e 80 ao desenvolver incríveis vertentes cômicas e genuinamente nossas. Afinal, quem não se lembra das engraçadíssimas temporadas de convívio entre Zé Carioca e Urtigão no Rio ou dos geniais Pena Kid, Pena das Selvas e Pena Submarino, todas versões "heroicas" criadas em historinhas nacionais, satirizando ícones como Batman, Tarzan e Príncipe Submarino  definitivamente, eles eram mesmo a nossa cara!


A Editora só pecou em dois aspectos nos seus encadernados especiais desses cinquentenários: apesar dos excelentes textos informativos sobre os cinquentões patopolenses com cara de brasileiros, de autoria de Marcelo Alencar, os grossos almanaques (305 páginas cada um) insistem no famigerado "formatinho Abril" com lomba quadrada, o que compromete uma satisfatória abertura da revista, bem como a visualização do canto próximo à lombada, que continua machucado e com ondulações;  o outro ponto negativo é a seleção das historinhas publicadas – mesmo com alguns achados, como as primeiras aparições de cada tipo e outras interessantes inéditas por aqui, as escolhas ficaram a dever por dar muita importância às fraquíssimas fases italianas de cada um e por preferir algumas bem bobinhas em detrimento de tantas outras mais marcantes (eu, como fã dos dois, sei bem do que estou falando e posso citar, de cor, inúmeras estórias hilárias que foram esquecidas), especialmente em relação aos grandes coadjuvantes de ambos, como o Biquinho, com tantos clássicos ao lado do seu atrapalhado tio, mas que ganhou apenas uma historinha fraca que "inventa" sua origem... Ainda assim, duas edições imperdíveis para qualquer colecionador (ainda mais eu, que tenho o Peninha, ao lado do Zé Carioca, como companheiro nas primeiras aventuras ao aprender a ler...)!


...E na Cozinha do Inferno!



Minha relação com o grande defensor da conflituosa Cozinha do Inferno (distrito real da área pobre de Manhattan, NY), deu-se de forma tardia e secundária: depois de muito acompanhar as revistinhas de medalhões da Marvel, como X-Men e Homem-Aranha, na adolescência, passei a perceber um vigilante bem interessante a ajudar tanto os famosos mutantes quanto o Amigão da Vizinhança com iguais garra e determinação  cego devido a um acidente com produtos radioativos na infância, e, por causa deles mesmos, com os demais sentidos ampliados a níveis sobre-humanos, o advogado Matt Murdock das causas perdidas e dos mais necessitados durante o dia e endemoninhado combatente do crime à noite me cativou, de cara, com seu ilibado caráter e seu uniforme incrível (daredevil tanto quer dizer "intrépido", "audacioso", como pode ser dividido em 'dare'+'devil', ou "demônio ousado": por isso a cor da roupa e os chifrinhos da máscara), mas só então percebi que de coadjuvante aquele super-herói não tinha nada! 

E foi mesmo com o equivocado filme de 2003 (sim, aquele em que Ben Affleck vive o "intrépido" herói e o saudoso Michael Clarke Duncan personifica um negro Rei do Crime) e com o então quase paralelo relançamento, nas bancas, de uma das suas melhores fases nos Quadrinhos, nos 4 encadernados Os Maiores Clássicos do Demolidor de Frank Miller (sim, aquele mesmo cara que estabeleceu conceitos incríveis em HQs e graphic novels inesquecíveis como O Cavaleiro das Trevas, Os 300 de Esparta e Sin City), que eu virei fã de carteirinha de um dos maiores heróis de todos os tempos, o melancólico, sombrio e religiosamente focado em sua luta contra o crime Demolidor, que também chegou aos 50 anos neste 2014.

O personagem praticamente foi reinventado nesta fase com Miller, nos anos 80, por meio do aprofundamento dessas e de outras sensacionais características  como as novas caras dos seus vilões (Mercenário vira um homicida loucamente sádico e Wilson Fisk sai do universo do Aranha para compor, em definitivo, o elenco do mal do "Homem sem Medo"), a origem ninja do herói, bem como um novo grande amor, a igualmente ninja Elektra (que, por sua vez, encontra o seu "fim" num brutal assassinato nas mãos do Mercenário, só para atormentar um pouco mais o pobre Murdock)... Em outras palavras, o famoso artista conseguiu a proeza de pegar uma revista quase cancelada e alavancá-la ao status de cultuada entre os fãs, que só aumentavam! Até que, depois de um breve hiato longe da Marvel, o roteirista voltou para desenvolver, junto ao seu colaborador artístico preferido da época, David Mazzucchelli (que, também ao lado de Miller, fez História na DC com Batman Ano Um), um arco de 7 números que marcaria para sempre o Demolidor como a sua melhor trama: A Queda de Murdock (Born Again) revolucionou ao expor duras chagas morais dos personagens (a antiga namorada Karen Page volta como uma viciada e ex-atriz pornô que vende o segredo da identidade secreta do herói), ao humanizar ao extremo as limitações do herói (Murdock perde tudo e ainda conhece sua mãe num convento no pior inferno da sua vida) e ao elevar ao extremo a expressão "fundo do poço" de uma história em quadrinhos...


É realmente curioso o quanto estou sempre "atrasado" em relação ao querido Demolidor: mesmo com a excelente fase atual, do artista Mark Waid, bem mais leve do que as últimas décadas de atormentado sofrimento à lá Batman (com cinco volumes lançados ao longo deste ano, com marcantes momentos que remontam às suas origens divertidas em 64, mas com toques bastante modernos), só li duas dessas edições e acabei por redescobrir o personagem mesmo através da leitura, pela primeira vez, dos clássicos A Queda (1986) e O Diabo da Guarda (inverossímil, porém interessante releitura atualizada da Fase Miller pelo polivalente Kevin Smith em 1998), lançados recentemente na imperdível Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, da Panini/Salvat  aquela que, embora com alguns tropeços, é imperdível não só por grandes momentos republicados em edição de luxo, como também pelo fato dos dorsos de cada edição te obrigarem a comprar a coleção inteira, a fim de não perder nenhuma parte do lindo mosaico composto com os super-heróis da Casa das Ideias! Perfeitamente justificável: o maior acrobata das HQs não tinha como não estar sempre à frente, em seus saltos performáticos pelos telhados, deste pobre e sedentário fã...

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