quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Última postagem do ano

Uma Última Reminiscência:

Amizade Eternas...


Domingo de manhã, supermercado cheio e, saindo apressado de um corredor para alcançar a filha (e o carrinho), eis que me deparo com uma amiga de longa data, dos tempos do terceiro ano colegial, Adeilza, que, como sempre, recebe-me com seu belo e gigante sorriso. E, dentre outras coisas ditas de forma bem rápida, ela me lembra de alguém que, três gôndolas atrás, eu já havia visto, mas havia sido obrigado a fingir que não percebera: – Ei, Márcia Cunha também está aqui: parece que hoje é o dia do encontro do pessoal do Dom Bosco no supermercado, né?!... Sorriso amarelo a esconder uma mentira (- Não, não a vi...) e, abraços e promessas de futuros contatos depois (que, apesar de sinceros, ficariam mesmo só na promessa), continuo as compras com minha garotinha sem conseguir esquecer o incômodo mental de ter mentido duplamente – para a amiga e pra mim mesmo...

Antes que me entendam mal e vão me interpretando como um sujeito ruim, retrocedamos no tempo e sigamos juntos para 1994, a fim de começar a entender melhor essa história: eram tardes fagueiras naquele juvenil e sempre alegre colégio – os vestibulares se aproximavam, muito da matéria a ser cobrada não seria dada (Geografia, por exemplo, só com as ótimas apostilas do GeoHistória!), mas, ainda assim, parecia que o Dom Bosco (ou melhor, o mundo inteirinho) pertencia unicamente aos felizes alunos daquelas duas salas do terceirão – mais especificamente da turma 300, com toda aquela molecagem e aqueles namoricos sem fim (eu mesmo, naquele ano, teria 3 namoradas e um cacho, todas do colégio)! Logicamente, é claro, nem tudo eram flores entre os futuros estudantes universitários dombosquinos (ou seria "dombosquianos"?!) e as ditas "panelinhas", infelizmente, assim como em qualquer microcosmo humano de convivência quase diária, eram formadas aos borbotões, com as costumeiras discórdias, disse-me-disses e pequenas fofocas fazendo parte do cotidiano, geralmente entre as moçoilas: assim, aquelas três meninas da frente não falavam com outros grupos femininos do meio da sala ou "do fundão"; aquela garota preferia encarar o Diabo a deparar-se com aquela outra por causa de um rapaz "em comum" do passado... E por aí a coisa toda caminhava!

Não querendo ser machista quanto a esta última análise – afinal, havia, sim, alguns meninos com "mais língua do que bacuri", como o non-sense (para dizer o mínimo) Fabiano, que adorava umas historinhas, mas isso até que espalhassem uma sobre uma pequena e dita como quase irrisória parte da sua anatomia, o que conteve mais o sem-noção defensor da Família Sarney! Mas, entre os rapazes, aquelas práticas não eram muito comuns, não. Sim, existiam os "antipáticos" – como um adorável aloprado que sentia compulsão em falar besteira só para ouvir, num grande coro, o seu apelido abobalhado; ou um outro, mimado e metido a rico, que parecia adorar ser daquele jeito só para reclamar, depois, vitimista e a boca miúda (e eu era um dos seus "confidentes" meio à força), que "não tinha amigos" ao obter o seu nada lisonjeiro apelido animalesco por causa da cara bochechuda e enfarruscada... Entretanto, nada de maiores desentendimentos ou de "gente de mal" por mais que uma tarde no mais infantil, porém divertido universo masculino – ainda bem, pois sobrava energia para mais engajamento em torno das sujas piadinhas de duplo sentido, sem perdoar ninguém, afora as devidas inserções jocosas precisas durante uma aula mais chata e até para um futebolzinho no final da tarde (que, realmente agregador, sabia mesmo aceitar perebas pernas-de-pau como eu)!

Mas tudo costumava ser resolvido desse jeito, em tom de galhofa generalizada: quem se garantisse, sobrevivia tranquilo e toda essa complexidade dos ofensivos bullyings da atualidade passava longe da nossa turma! E como eu acho que sempre "me garanti" de forma tranquila – o nerd bom de notas, mas longe de ser um CDF esquisito; o "geograficamente afastado" (depois de trocas de lugares por cada canto da sala, assentei praça na ponta esquerda, devido à melhor visualização do quadro e, vá lá, a uma "desilusão amorosa"), porém boa-praça e companheirão –, acabei sendo amigo de todo mundo. E enquanto o jeitão meio cool com certo charme me ajudava na popularidade com as meninas, com a “galera do mal” masculina eu passava respeitosamente incólume pela onda de apelidos demolidores da época (nem tão incólume: o sugestivo Wolverine, sucesso na animação dos X-Men, terminava por ser uma alcunha bacana, já que o velho "Cabeça", graças a outros cabeções mais proeminentes e bem menos charmosos, como o "Sinistro" Allan, foi-me abandonando aos poucos)!

E, com bom trânsito entre todos – talvez somente eu, Frederico, com sua singela simpatia e bom humor constante, e Luciano, com sua verve sempre inteligente e histrionicamente debochada, conseguíamos formar o raro rol dos que falavam com todos –, passeava por todas as "panelas", somente alterando o módulo operacional pra cada “necessidade” específica: piadas escrachadas e imitações dos professores com o "pessoal da bagunça"; humor mais inteligente e bate-papo mais suave com as meninas mais delicadas, como com as duplas Silma e Fernanda Moreira ou Érica e Jandira (não por acaso, da amizade surgiria o amor...); o cara todo-ouvidos e conselheiro sentimental para Adriana e Danielle e suas paixões mal-resolvidas... Mas, dentre todos esses grupinhos femininos com quem gostava de conviver e conversar, o quarteto irreverente formado por Angélica, Cristiane, Márcia e Adeilza (havia ainda Adriane, que frequentava bastante o metiê, porém, mais dada com o restante, não ficava ali restrita), por causa das divertidas e apimentadas picardias que acompanhei nas poucas vezes em que me sentei perto das quatro, sempre marcou bastante...

Mas que se dê especial destaque às duas últimas: Márcia Cunha, então adoravelmente cheia de espinhas e sempre um bom-papo, e Adeilza Marinho, a despachada "filha do dono do Itareck" e suas piadas assanhadinhas – como na famosa vez em que me apelidaram de Mangueirão graças às... benditas calças de moleton do fardamento da época! Sim, porque a caladona Angélica sumiria do mapa para mim logo após o término do ensino médio e Cristiane Maia, assim como outros "amigos" da época – como Cristiano, que demorou um bom tempo para "se lembrar" quem éramos eu e Jandira certa vez em que o abordei num shopping –, no gostoso linguajar popular, parece que "ficou besta" e não fala comigo desde a última vez em que conversamos ainda na escola, quando dela recebi, num "amigo invisível de cartões" que tivemos no finalzinho do último ano letivo, um cartão onde ela me exaltava e prometia amizade eterna... Será que ela já havia sobrescritado o cartão pensando noutra pessoa antes de tirar o meu nome?!

Mas, como tudo o que é bom acaba, tivemos nossa festinha de formatura (cheia de inimizades e confusões na organização, sim, mas tivemos – e eu era o representante da turma no meio do tiroteio) e o terceiro ano chegou ao fim... Os amigos de verdade mantiveram contato em meio às festividades e bocas-livres, todas bem regadas a churrasco e pagode-anos-90, de quem ia passando nos vestibulares das então três faculdades existentes no Estado. E, quando se encontravam pelas paradas da vida, o delicioso conversê dos "velhos tempos" não cessava ao longo das viagens pelos ônibus Campus UEMA lotados, rumo aos campi mais afastados! E, num desses reencontros furtivos, eis que a querida Márcia, aplicada nos estudos e já aprovada pelos difíceis exames da UFMA e desejosa de que seu irmão seguisse o mesmo rumo um ano depois, resolveu pedir-me um bom livro de História para ajudá-lo, no que, de pronto, aceitei de bom grado...

Opa, esperem aí: como era aquele ditado, sobre jamais dever emprestarem-se umas coisas que nunca voltavam da mesma forma? Carro, mulher e... livro, n'est-ce pass?! Hum, o risco era grande – ainda mais quando se tratava de uma edição então rara de um grande historiador e pertencia à coleção pessoal do meu irritadiço irmão... Mas, não: em Márcia nós confiávamos! O atento leitor já deve estar conjecturando que o motivo da ruptura tenha sido unicamente o livro – que voltou sem capa (!), com páginas machucadas e quase um mingau em péssimo estado –, mas foi um pouco mais do que isso... E assim, depois de minhas broncas de um lado do telefone, de desaforo dela do outro e, quando na primeira vez em que a encontro pela rua, viro a cara e mudo de calçada (comportamento intempestivo e imaturo, eu sei, minutos depois, bateria o arrependimento... mas era o que se tinha para aquele dia), seguiu-se o inevitável rompimento, cujo distanciamento se perpetuaria pelos tempos até que um dos dois, "cheio de razão", viesse a se desculpar com o outro – o que jamais aconteceria...

Nisso voltamos para o final de 2013, quando encontrei Adeilza no supermercado, e todas aquelas sensações estranhas voltavam à tona: afinal, "ficar de mal" jamais fora meu forte... E, apesar de ser a época do ano mais cheia de sensibilidade à flor da pele, ficava meio sem graça de tentar, no meio daqueles corredores cheios de gente, uma aproximação com Márcia, que poderia retribuir com o mesmo comportamento hostil que eu tive com ela quase vinte anos antes... E quase um ano inteiro se passaria novamente em silêncio entre nós até que um fato inusitado principiasse a botar um fim nessa tola querela em aberto: antigos colegas, tomados por uma surpreendente nostalgia daqueles tempos, passaram a encher seus perfis do Facebook com fotos antigas do nosso tempo de escola, especificamente dos três últimos anos do segundo grau – e, num desses raros takes, quem eu encontro, com a bela e tradicional farda em azul e branco, de pé e com a mão direita apoiada sobre o meu ombro magro (sim, eu fui magro um dia, pescoço comprido... e tinha bem mais cabelo!), quase em frente à antiga sala dos professores? Márcia e eu, quase abraçados, numa foto de 1993!

Aquilo era emocionante demais: eu precisava voltar a falar com ela! Assim, com medo de um desnecessário "fora", ainda tentei uma mediação prévia, pelo próprio Face, via Adeilza – mas, diante da fausta e repleta vida de boleira muito bem sucedida, em que sequer atende velhos amigos com modestas encomendas, a velha colega de classe igualmente me negligenciou aquela meio que necessária preparação para meu retorno, alegando não encontrar mais a colega em comum... De fato, descobriria depois que, justamente nessa época, a danada da Márcia resolveu "sumir", tanto no mundo virtual como no real, e ninguém parecia encontrá-la! Mas nada como um dia após o outro e, ao cabo de algumas semanas, reencontrei a antiga colega "dando sopa" na internet e resolvi agir: para muito longe dos antigos telefonemas interrompidos da juventude mais intempestiva, agora a reaproximação seria via inbox, em novembro de 2014.

Então, com bom humor (em grande parte para disfarçar a timidez) e sem maiores delongas: – Ei... Tudo bem? Pois é... Há quanto tempo, né? Eis que vi aquela foto em que estamos juntos e tanta coisa boa voltou... Então, segue aí a minha "solicitação de amizade" para quebrar o gelo por ora e, em caso de aceite, você poderá ganhar, inteiramente grátis, uma crônica de reminiscência dombosquina! Abraço e até... Graças a Deus, sua resposta não poderia ter sido mais "Márcia Cunha"simples e gentil:Olá... Há qto tempo mesmo... Vou aceitar, sim... Desde então, não se passou um único dia sem que nos falássemos e ríssemos das nossas tolices da juventude, atualizando o bate-papo de outrora para as atuais rotinas com as profissões, casamentos e filhos, e sempre nos reencontrando, com as famílias respectivas, pelos aniversários dos filhos do outro... 

Só que não
a realidade foi bem diferente (nem toda amizade mantém efusividade eterna): voltaríamos a nos falar somente alguns meses depois (ainda virtualmente), e, a partir daí, em tempos cada vez mais espaçados e só via inbox, com algumas "curtidas" aqui e ali entre nossas postagens, mas sem jamais entrar na ferida propriamente ditaque seria devidamente "tratada" somente na grande crônica prometida, mas que eu nunca escrevia, a encerrar o divertido rol de outros textos onde falava sobre os amigos dombosquinos, e assim seguimos até hoje! Passou o seu aniversário, o de Adeilza (que continua ensandecida para ler esta humilde última reminiscência
finalmente com citação a sua pessoa), várias outras oportunidades e somente agora, mais de um ano depois, publico em meu blogue esta crônica cheia de especial carinho, aproveitando uma época tão prodigiosa em renascimento de esperanças e reafirmações nostálgicas como o é esse período de virada de ano...

– Facebook?! Não tenho, nem quero ter: não vejo graça! E para essa velha desculpa de que serve para “reencontrar amigos dos tempos de escola” eu tenho uma resposta na ponta da língua: se você perdeu contato com alguém que se dizia seu amigo, algum motivo aconteceu para o distanciamentoe esse tal de 'Face' não vai mudar isso: só vai 'mascarar' algo extinto... Não, eu não penso assim: esta frase é de um amigo meio amargo em relação à famosa rede social – infelizmente, não completamente sem razão: aquele rapaz mimado, por exemplo, depois de um belo processo de humildade pelas redes sociais, recentemente me foi extremamente hostil numa interpretação errônea sobre uma postagem minha (o tempo não passa para todos...), tão grosseiro como num perdido 1998, época em que eu comandava uma empreitada cultural do Clube dos Amantes do Cinema e, num furtivo "reencontro de supermercado" com ele, a conversa não terminaria tão salutar quanto o encontro com a doce Adeilza do início desta reminiscência: – Você está fazendo um programa de rádio com trilhas sonoras de Cinema na Universidade, né? Eu ouvi... E achei uma merda!, concluía ele, dando as costas ao bobo aqui, que não sabia o que dizer... Mas até os maiores vilões do Cinema têm a sua função na trama, não é mesmo? Então eu lhe agradeço pela sessão, assim como a todos os que cruzaram o meu caminho desde o colégio e cresceram junto comigo... Sem ressentimentos, nem mudanças de calçadas, não mais!

No final das contas, guardamos todos um pouco de vilão e as redes sociais estão aí para evidenciar isso: amigos brigando por causa de besteira e deixando de se falar fora do ambiente virtual. Se no meu tempo, um livro e a falta de maturidade de ambos os envolvidos para resolver um problema tão simples gerou anos de separação, hoje, no auge da comunicação, colegas já velhos ainda aprontam lambanças piores do que a minha com Márcia! Sim, já recorri a bloqueios virtuais, mas foram raríssimos e sigo normalmente com quem me queira bem fora da tela azul – deixando bem claro que somente naquele nicho é que "o relacionamento não deu certo" (bom senso é tudo: até porque não tenho tempo para ficar postando o que eu comi e onde estou, menos ainda para ficar me desentendendo com ninguém)... E, frise-se, trata-se de situação aplicável só em casos extremos, quando o interlocutor virtual deixa os já insensíveis caracteres (nada substitui uma boa conversa real e cara a cara) ainda mais nervosos e enrijecidos ou perde a noção em embates de inúmeros comentários desairosos! 

Eu mesmo, para um querido amigo dombosquino de longa data, devo ter sido vilanesco, quando, numa postagem com foto de sua linda filha numa apresentação de festa junina, tratei sobre os perigos de uma escola "ensinar" a desprezível "arte" do blackface (antigo teatro de variedade em que brancos se "fantasiavam" de negros, expondo, de forma exagerada, feições e comportamentos racistas) numa dança folclórica de inocentes festas juninas – acabei "incomodando" muitos dos seus parentes, que, por sua vez, atacaram sem dó nem piedade o "comunista" aqui... Inoportuno?! Devo ter sido (tratar de temas ideológicos numa postagem de foto familiar?! A intenção não foi essa)... Mas nada que uma conversa inbox entre adultos não resolvesse! E o que aconteceu de fato? Todos os meus comentários foram apagados (mantendo-se os dos parentes ofensivos, é claro) e o amigo não só deixou de me seguir como não deu a mínima para tentativas de contato virtual – o que muito me lembrou a figura de uma criança que não sabe dividir os brinquedos e encerra a brincadeira sem qualquer argumentação! Que esta última reminiscência toque o seu coração para voltar a me convidar para os deliciosos churrascos de linguiça (sem trocadilhos infames do terceiro ano, por favor!) e de peixe na brasa em sua residência, aos sábados... Que eu ainda amo muito todo o nosso convívio de décadas no mundo real!

Pois é como diria aquela velha canção: Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo – mesmo amigos de longa data, em lugares públicos reais ou virtuais, com fácil e rápida interação entre os mais variados tipos (parentes, vizinhos, muito próximos, completamente desconhecidos etc.), como é o caso do Facebook – onde parece que a ânsia por status ou aceitação muitas vezes atropela boa gente e seu bom senso –, acabam revelando um estranho "Lado Negro" depois de certo tempo! E assim, por causa, por exemplo, de um posicionamento político, de uma brincadeira ou de uma mensagem mal interpretada, vejo muita gente boa se afastando uma da outra... Mas também vejo muitos reencontros de gente dombosquina que não via há tanto tempo, todos sorrindo em gostosos convescotes caseiros a celebrar o tempo e a amizade! Nos últimos tempos, enquanto não chega aquela festa dos sonhos de reencontro de ex-alunos que alguns tanto almejam, no melhor estilo dos filminhos do cinemão norte-americano, o que mais tenho visto são encontros fortuitos e sem maiores cerimônias (em sua maioria, organizados pela loba-boa de coração gigante Adeilza, e prestigiados até mesmo por intrusos de outras salas, como o mais-que-querido e "perigoso" Flávio Augusto), repletos de fotos alegres e devidamente compartilhadas, com antigos amigos dos tempos da escola celebrando a vida e amizades eternas nos dias de hoje...

Porque todos nós crescemos bastante e vivemos muitas coisas nesses últimos vinte e uns anos depois daquele inesquecível 1994: alguns de nós se casaram e se encheram de filhos – como o compadre Jimmy (com 5!) e eu (com 3) –; outros já não tiveram a mesma sorte e lutam contra os "ex" por causa dos filhos; outros perderam entes tão amados que a dor se irradiou por entre todos os amigos daquela época conectados... Mas basta um único encontro para que todos as dores e as pequenas agruras se dissipem e aquela alegria juvenil brote novamente quando se trata de grandes amizades colegiais! E é por isso que, a despeito de todos os seus contras, não posso reclamar do Face nem de qualquer outra rede social (à exceção do Whatsapp, a que eu não consigo me render com suas insuportáveis atualizações segundo após segundo): afinal, graças a ele, reencontrei alguns amigos de verdade e com eles mantenho contato na medida do possível nesses difíceis e corridos tempos modernos, onde amizades se reencontram ou se refazem, como no meu caso, em que pus fim a uma inconsequente bobagem que me impedia de uma coisa tão simples, porém cara: ser eu mesmo e receber com um sorriso uma pessoa bacana como a Márcia – junto a tantas belas reminiscências dombosquinas como esta –, a qualquer hora e em qualquer lugar, real ou virtual! Como num supermercado, a prometer reencontros infinitos qualquer hora dessas...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O Negro,
O Novo Lado Negro e
A Menina dos Olhos de Luz...

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Os novos rostos das novas Guerras: belo e competentíssimo elenco jovem - à exceção do esquisitão ali do primeiro quadrinho, para quem voltaremos os nossos blasters no tempo oportuno! Mas só não deixem o seu personagem ouvir isso: com todos os senões e a pífia "qualidade" do Adam Driver, seu Kylo Ren é bem bacana (e mal pra caramba)...


Por pouco não fui seduzido
pelo lado consumista
da Força antes da hora...
Fiz tudo o que o protocolo do velho fã das sagas do cinema-espetáculo preleciona: acompanhei todos os traillers e comerciais com "mais cenas inéditas" (e haja contagem regressiva!), criei a devida expectativa revendo algumas das principais cenas da hexalogia - ora acompanhando pequenos trechos pelos DVDs da trilogia original ao lado da mais velha, para ver se ela "comprava" a paixão; ora acompanhando, irritado com as oportunistas reprises televisivas, sequências da "trilogia ruim" dos Episódios I, II e III - e comprei os ingressos antecipadamente (pela primeira vez!) para a primeira sessão na minha Cidade (à exceção das pré-estreias à meia-noite)... Só não comprara nenhum dos bonequinhos (ou action figures, como querem os colecionadores mais sérios) antes da estreia, porque preferia envolver-me primeiro com os novos personagens para decidir optar pelas miniaturas mais interessantes... Tampouco adquiri todas as revistas com o novo filme na capa (só e tão somente um bacaninha especial da Superinteressante, que fugia do lugar-comum) por não ter mais espaço para guardá-las, como nos idos anos 80, onde se amontoavam em meu quarto VideoNews e Sets com capas sobre as igualmente aguardadas continuações de Batman, Robocop, GremlinsCaça-Fantasmas... 

E finalmente chegou o grande dia: Star Wars - Episódio VII - O Despertar da Força estreou nesta quinta, 17, e minha esposa e eu voltamos à sala escura depois de muito tempo sem entrar num cinema - minha última ida a um cine foi para ver o Robocop do Padilha (e fui sozinho)! Entretanto, ao contrário das mais capitalistas expectativas, nem seria necessário tanto tempo de antecedência nas compras dos ingressos: nada de fila, nem de alvoroço e, à exceção de alguns isolados gritinhos e prenúncios de palmas (que logo se desfaziam sem o devido acompanhamento) de alguns poucos mais entusiasmados, aquela sessão quase vazia em nada lembrava a última grande expectativa anunciada para um filme recente que se propunha a reviver antigas paixões - e que pude testemunhar em sua primeira sessão, completamente lotada e cheia de entusiasmo: Superman - O Retorno, para muitos, acabou sendo um decepcionante remake pretensioso dos dois primeiros com Christopher Reeve, de 1978 e 1980 (embora eu discorde e tenha apreciado bastante o novo do Sr. X-Men, Bryan Singer), incapaz mesmo de render qualquer continuação (a Warner/DC acabou dando um tempo maior e desenvolvendo de novo tudo do zero com O Homem de Aço)... - Mas Star Wars, não: estamos diante de uma nova saga! -, torciam os morceguinhos mais animados com o futuro da tão amada série cinematográfica... Será?!

- Mas cadê o Luke no pôster, meu Deus?!
Toda aquela adolescente "preparação", entretanto, não foi no todo vã: embora eu já houvesse visto os seis filmes anteriores no cinema, a abertura original (sempre repetida a cada início dos filmes da saga com um resumo do que ocorreu até então), com a expectativa alimentada pelos últimos meses, desta vez foi ainda mais emocionante e me embaçou os óculos 3D, aquela coisinha antipática e antiquada a que nos obrigam os blockbusters de hoje, mas que, por causa dele mesmo, a emoção foi maior, com o famoso letreiro amarelo "solto" no espaço! E, encerrando-se a abertura com o famoso tema de John Williams - que, apesar da idade avançada e da mesmice dos últimos trabalhos (inclusive na última trilogia), destacou-se novamente com uma rica trilha sonora -, o frio na barriga começou e pensei com meus botões: - Lá vamos nós...

E então, tudo - eu disse TUDO - passou a se encaixar com exatidão, numa linda perfeição que há muito eu não encontrava no Cinema Fantástico: um começo eletrizante, com a ilustre presença de um veterano (Max Von Sydow); um vilão interessante à melhor moda dos clássicos de 77/81 e 83 (máscara, voz e trejeitos de um Lado Negro ainda mais soturno e impiedoso); takes de tirar o fôlego ou de sensível beleza (ainda mais com a profundidade em 3D) - como os pungentes closes com as naves, como que apontando para a plateia do espaço, e o "balé" dependurado durante as longas coletas de sucatas dentro dos gigantescos "esqueletos" das naves abandonadas - e a apresentação paulatina de excelentes novos personagens, que dominariam a cena na excepcional primeira parte do filme: o piloto com cara de latino bonitão e cheio de confiança; o stormtrooper negro que enxerga o caos e o terror em que se meteu e quer desertar; um novo robozinho encantador; e uma ainda mais encantadora, porém durona, jovem solitária menina-mulher que sabe se virar sozinha num planeta desértico e tem muito mais dentro de si do que supõe qualquer machista vã filosofia... 

Ah, sim: também foi muito emocionante rever, nesse meio-tempo, o retorno triunfal de Han Solo e Chewbacca - e, posteriormente, de uma combalida Leia (agora General) junto a igualmente pequenas aparições de ícones pop como os droides R2-D2 e C3-PO -, repetindo piadinhas e situações de longa data, numa sequência tão divertida quanto clássica fuga de dentro da gigantesca minhoca do asteroide de O Império Contra-Ataca... Assim como foi descobrir que o medo, a raiva, o ódio e o sofrimento continuam a pairar por sobre os Skywalkers (eta, familizainha shakesperiana!). Mas sabe aquele filme de personalidade, que sabe criar por sobre os cânones tão amados por uma legião de fãs espalhados pelo mundo todo (quiçá pelo Universo...), com novos tipos tão bons, que mesmo o expectador mais empedernido nem sente uma necessidade tão grande de ter os antigos heróis na tela? Pois é: palmas para o senhor J. J. Abrams, o "novo Spielberg" (ou seria "novo Lucas"?) do Cinemão, que conseguiu a proeza de fazer este novo episódio se sustentar assim - Great! - acredito que muitos, como eu, seguiam eufóricos - Nem precisamos mais dos velhos personagens: que comece uma nova saga! - só que não foi bem isso que aconteceu: ao invés de um reboot, mas parecia estarmos revendo os filmes antigos numa sessão especial...

Apaixonante e engraçado!
Pois é: após essa "primeira parte" cheia de criatividade por sobre velhos temas e tipos - emocionante ver as carcaças dos grandes destroyers semi-enterrados pelas dunas ou novos caças Tie mandando ver em Jakku -, eis que o grande roteirista Lawrence Kasdan, responsável por genialidades dos anos 80 (como o roteiro do próprio O Império contra-Ataca e de Caçadores da Arca Perdida), grande parceiro de São Steven e São George na formação das suas igrejas do entretenimento, parece ter sucumbido ao Lado Negro (que mané "Sombrio" ou "Escuro", o quê!) do saudosismo (ou seria do comodismo fácil e certeiro?) e, junto ao próprio Abrams, passou a entregar um enredo desconfortavelmente liquidificado dos principais elementos do Episódio IV (Uma Nova Esperança) e do Episódio V (O Império...): o novo vilão obedece cegamente a um líder ocultista que só aparece em cena por holograma; um velho contrabandista guia pessoas para uma grande missão; um famoso núcleo de resistência se forma na clandestinidade para combater uma nova ordem do Império (pra lá de estabelecida, às barbas da República!); e essa tal ordem já tem a sua estação bélica destruidora de planetas (sim, no plural), só que agora não se trata mais de um satélite artificial, mas de um "planeta da morte"! 

Tudo bem, nada mais gostoso do que perceber ecos de sua amada série original em novos filmes: lindo rever as metáforas da "ponte entre pai e filho" sobre um abismo (entendedores entenderão: NO SPOILLERS, PLEASE!), a alegria em torno do "amor impossível" entre os turrões Leia e Solo (passando o cetro para Finn e Rey: novo casal multirracial?) e a fascinação cômica do novo BB-8, a substituir com ainda mais carisma e afetuosidade o velho R2-D2, a fazer uma bela ponte entre a velha e a nova geração... Mas daí a estabelecer AS MESMAS bases para a "nova" história?! Até a "cena da cantina" tinha que ser repetida? - Belas homenagens e referências... - divagam alguns Morcegos mais românticos que me acompanham na plateia; - PLÁGIO! AUTOPLÁGIO!!! - fingem espirrar outros Morcegos, mais engraçadinhos, porém críticos mais ferozes; - Eu estou gostando de todo esse clima nostálgico... - concluía Jandira, ao meu lado, ignorando minhas múltiplas exigências para com a minha série amada de longa data - Lembrando que foste tu quem me ensinou a amar Guerra nas Estrelas: particularmente, eu achava tudo um grande videogame!... É... Podia ser que eu estivesse exigente demais!

A zoeira virtual segue: canivetes suíços de luz!
Só que não - e, depois de nos cativar com a história do soldado que cresceu à sombra do novo império e desiste ao ver a barbárie que esta nova ordem defende, cometendo atos heroicos aos trancos e barrancos pelo caminho de sua fuga, defendido com forte presença por um ótimo e jovem ator negro, John Boyega - que, ao lado de Billy "Lando Calrissian" Dee Williams (primeira trilogia) e Samuel "Mace Windu" L. Jackson (na segunda) -, passa a compor o raríssimo panteão dos pouquíssimos "personagens de cor" da série - e de nos apresentar ao novo vilão, dos Cavaleiros Ren e sua espécie de novo Lado Negro da Força, que emula a máscara de Vader e também tem voz marcante - e que, apesar de bem menor em estatura e persona, mostra-se um grande personagem desde o início (- Mas o que foi aquilo: ele segurou um raio blaster no ar antes de atingi-lo?! Vou torcer por esse cara!)... Eis que a história dá uma estranha guinada e o herói-por-acaso arrebenta com o sabre de luz, mesmo sem nenhuma formação Jedi, simplesmente por amor! E o supervilão tira a máscara antes da hora e mostra uma cara lisinha (e também nariguda e muito esquisita!), desestabilizando toda uma plateia que já não havia aprovado muito o lance do "sabre vermelho de três pontas" e que agora se pergunta, em meio a cansativos discursinhos nazistoides (os adolescentes têm que entender as analogias "sutis"), o que será de uma futura trilogia se não conseguirem arrumar um vilão mais expressivo (e um melhor ator que o Adam Driver para vivê-lo)?

Mas, para além dos comodistas repetecos do que deu certo nos Guerras anteriores (Kylo Ren, assim como o Anakin que mata padawans em A Vingança dos Sith, segue a tradição do vilão perturbado que comete atrocidades que assustarão a plateia, longe do carisma cool de Darth Vader) e dos roteiros esvaziados pelo excesso de reverências nostálgicas, o certo é que o Cinemão de Abrams conseguiu um feito maior e mais interessante do que as recentes tentativas dos seus Mestres, Spielberg e Lucas, de revitalizar suas consagradas franquias - ou algum blogueiro de plantão aí já se esqueceu das atrocidades, nos anos 2000, de Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal e das prequels dos Episódios I, II III?! Pois que a atmosfera e a direção centradas em não fugir em nada da grande essência da mais que clássica cinessérie - coisa que também funcionou no recomeço de outra franquia espacial nas mãos do próprio Abrams, Star Trek - Jornada nas Estrelas -, agrada muito mais e nos ajuda, ao sair da sessão de um "novo" Guerra nas Estrelas, a guardarmos as emoções da infância revividas há pouco e - o que é melhor - lembrarmos bem pouco dos defeitos repetidos! 

Fascinante e fascinada...
Sem esquecer a luz dos belos e cativantes olhos da forte personagem Rey: a excepcional e linda novata Daisy Ridley (guardem este nome e este adorável sotaque inglês!) deixa visível o seu fascínio em participar de um projeto tão grande e antigo e dá conta do recado como a grande protagonista da trama, com muito mais participação do que suas predecessoras Leia e Amidala (ou seriam, respectivamente, "mamãe" e "vovó"?! Só o tempo dirá...) e, rapidamente, converte em si dois dos maiores personagens clássicos da saga, definitivamente fazendo de Star Wars um "filme de mulher", num legítimo despertar da força feminina! - Ela é a nossa única esperança..., suspiravam, com ares de Yoda, alguns dos Morcegos mais feministas presentes, no que eram interpelados por outros, mais kenobianos - Não: há outro... 

No caso, o lindo e emocionante alento final, cheio de camadas e leituras para futuras continuações se firmarem como filmes melhores e mais independentes (ainda que com velhos personagens), no melhor exemplo daquele tipo de "cena derradeira" que sabe emocionar e nos faz ansiar pelos próximos episódios dessa galáxia muito, muito distante, porém tão próxima, se considerarmos todo um riquíssimo e vasto legado cultural que ultrapassa as barreiras do tempo e nos faz esquecer as idades avançadas (envelhecemos juntos: nossos filhos seguirão pelos filmes, games, livros, HQs...), eternamente cheios de esperança pelo tão ansiado equilíbrio pleno entre a criatividade de outrora e as necessárias histórias novas - que a Força esteja com... a Disney! Yeah: BB-8 is the new Mickey!
Preparem seus lencinhos para reviver grandes emoções com esses "velhinhos": a Força é poderosa com eles!

sábado, 12 de dezembro de 2015

100 Sinatra


Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption
I've planned each charted course
Each careful step along the byway
And more, much more than this
I did it my way
(Trecho de My Way - "meu caminho" ou "meu jeito": costumava, assim como na clássica canção, orgulhar-se da sua trajetória... E não era pra menos: poucos viveram tão intensamente como ele!)

Presenciei, pelos noticiários e à distância, a partida de ídolos muito próximos na minha juventude, coisa que acabou marcada na memória afetiva, tamanha a admiração descoberta, ainda na pré-adolescência, do poder artístico daqueles sujeitos: assim, fiquei extremamente triste, em dezembro de 94, quando da ida precoce do maestro Jobim (67 anos), bem como, alguns anos depois, das mortes do sublime Sinatra (83) e do genial Nelson (79), também nos anos 90... Hoje, 17 anos depois de sua partida, tomo conhecimento do centenário de nascimento dos "Velhos Olhos Azuis" e penso com meus botões - Grande Frankie... Mas acho que não postarei nada, não: já devo ter escrito uma pá de postagens nos Morcegos sobre esse cara! - e qual não foi a minha surpresa quando, procurando pelo blogue, descobri que jamais escrevera qualquer coisa diretamente endereçada ao gigantesco cantor jazzístico, a não ser algumas menções em posts sobre outros grandes artistas - como o próprio Jobim, com quem "A Voz" realizou um dos melhores discos de todos os tempos, Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim, naquela perfeita fusão do jazz romântico do cantor estadunidense e a então estonteante novidade do romantismo da Bossa Nova... Pois é: nenhum mísero post dos Morcegos dedicado ao grande cantor norte-americano!

E Frank Sinatra merece muito mais! Afinal, ser um ítalo-americano franzino nos anos 10 do século XX, nascido a fórceps (com a extrema vaidade que lhe era peculiar, sempre usou maquiagem para disfarçar as marcas deixadas entre o rosto e o pescoço do lado esquerdo) e extremamente humilde de uma cidadezinha próxima à Nova Iorque, Hoboken (cuja maioria dos citadinos jamais perdoou o famoso cantor e ator, porque este nunca teria feito nada pela Cidade), crescer e se tornar um dos maiores cantores de todos os tempos, sendo referência viva até hoje, a despeito de seu começo um tanto quanto "marqueteiro" (moças eram pagas pelo seu agente para gritarem e desmaiarem durante as primeiras apresentações) e apesar de seu gênero mais representativo, o jazz big band, não ser nada popular entre os ruidosos "gêneros" musicais atuais, não é coisa para qualquer um! E tudo isso se deve ao seu talento único, um jazzista branco cheio do melhor swing musical negro (tal como uma de suas mais famosas adoradoras, a também falecida Amy Winehouse) e com marcantes e definitivas interpretações para clássicos como The Girl from Ipanema (da parceria sua com Jobim) Fly me to the moon, Night and Day, Something Stupid, I got you under my skin, The lady is a tramp, In the wee small hoursI get a kick out of you, Strangers in the night, Let me try again, My Way (que ele não gostava nem um pouco de que caracterizasse o seu repertório, a ponto de ter sempre de cantar aquela canção melancólica e decadente) e, é claro, Theme from New York, New York, música-tema de um filme de 1977 - com Robert deNiro e Liza Minelli (que ficou igualmente famosa com a canção), musical de Martin Scorcese (!) desconhecido do grande público - e que só se tornou famosa graças à pungência dada pela gravação de Sinatra, três anos depois, em 1980.

- Talento, nada: ele só ficou famoso por causa da Máfia italiana por trás de tudo, esse criminoso!, diriam alguns dos seus detratores... Talvez, mas só no comecinho da carreira ou em épocas particularmente mais difíceis, como na dura separação de sua segunda esposa, a belíssima atriz Ava Gardner (logo ele, um conquistador inveterado, de amantes do naipe da estonteante Juliet Prowse e do mito Marilyn Monroe, chorando e tentando o suicídio por causa do "animal mais belo do mundo", como estranhamente Jean Cocteau chamava a linda Ava): ninguém se transforma no "cantor do século" e se mantém amado por milhões ao redor do mundo ao longo de tantas décadas por mera imposição de grupos escusos! Embora seja famosa a história de como ele teria conseguido o papel de Maggio, que lhe renderia o Oscar por A um passo da eternidade e elevaria sua carreira novamente nos anos 50 - tanto que muitos afirmam que aquela passagem do cantor ítalo-americano decadente e assustadoramente ajudado por Dom Corleone no livro O Poderoso Chefão tenha sido diretamente inspirada na vida de Frankie... Fofocas do submundo à parte, o certo é que talento lhe sobrava, e não só na esteira de sua perfeição como cantor, como também na arte da atuação: foram muitas e muitas interpretações memoráveis no Cinema, em clássicos como Alta Sociedade e A Bela Ditadora (início marcado pelos musicais e pela exploração de seu carisma e poderosos vocais em intermináveis cenas de canto e dança), passando pela sua reinvenção em A um passo... e por trabalhos puramente divertidos entre amigos, como Onze Homens e Um Segredo e Os Quatro Heróis do Texas (ambos com Dean Martin) até chegar à maturidade em filmes incríveis, como O homem do braço de ouro e Sob o domínio do mal. 

Assim, se ele começou "imitando" ídolos como Bing Crosby e Billie Holliday, com o tempo cresceu ao ponto de superar aqueles em potencial vocal ou em poder de interpretação. No fundo, o bon vivant Sinatra, o mesmo líder do grupo machista e beberrão do Rat Pack ("pacote de ratos", sugestivo nome dado por Lauren Bacall ao bando de cantores safados capitaneados, inicialmente, por seu marido Bogart e formado por Frank, Dean, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop), sempre se manteve como um bom vinho: quanto mais envelhecia o magrelo ex-crooner, mais encorpava (literalmente, o que lhe emprestou mais charme) e melhorava em qualidade - no caso, graças ao meticuloso perfeccionismo e sua extraordinária intuição (nunca estudou Canto ou Música e ainda tinha um tímpano perfurado, por causa do fórceps), cada interpretação se mantém única e com um indescritível frescor, mesmo com tanto tempo de "engarrafada"! Curiosamente, ele não escreveu nenhuma de suas milhares de canções tão amadas - tantas que existe um programa de rádio novaiorquino que só toca canções do Old Blue Eyes! Mesmo assim, com sua voz inigualável e poderosa, sua postura máscula e cheia de sedução e o sua figura de poder (não só o ligado à Máfia...) e respeito, transformou-se num mito! Tantos anos sem Sinatra, mas sempre haveremos de tê-lo!

New York New YorkTive o prazer de descobrir Frankie por volta dos 11 para 12 anos, quando, numa de minhas muitas idas à casa de um amigo no meu bairro, passei a criar a mania de fuçar nos discos do seu pai, entre LPs e os então recém-lançados CDs, para gravar fitas K-7 - ocasião em que encontrei New York, New York, famosa coletânea de hits lançada em 1988 que reunia alguns dos seus maiores sucessos. Como, desde então, ouvia muito essa fita, fiquei bastante conhecido entre amigos e parentes como um "cara das antigas", "fã de Sinatra", o que, invariavelmente, acabou me entranhando ainda mais no gosto pelo old fashion de outros artistas da Era de Ouro do Jazz, como Billie Holliday, Duke Ellington, Tommy Dorsey e Sua Orquestra (da qual o Sr. Olhos Azuis foi crooner), Glenn Miller e The Platters. Já enraizado com essa "pecha", fui muito presenteado por amigos, alguns anos depois, com um sem-número de coletâneas de Frank Sinatra após a sua morte, em 98 - algumas, meros "caça-níqueis de defunto", com gravações não-remasterizadas ou interpretações pífias de começo de carreira, mas que guardo com carinho; outras, porém, excelentes, como um dos meus discos favoritos, Classic Sinatra - His Great Performances 1953-1969, que reúne algumas pérolas preciosas de um intérprete imortal...

E assim os ídolos que se iam nos primeiros passos da minha juventude foram se mostrando, com o tempo, imortais em minha admiração - especialmente agora, em minha maturidade, quando posso comprar ou encontrar, nalgum qualquer site que disponibilize bons torrents, para baixar e gravar, no mais espaçoso pen-drive ou HD externo, todos aqueles que pereceram, mas não deixaram de existir graças ao poder de suas Artes... E se até hoje a Memória coletiva ainda traz, merecidamente, nomes como os de Sinatra e de Tom sempre à tona, infelizmente alguns monstros sagrados, como Nelson Gonçalves, um dos maiores cantores brasileiros (particularmente entre a morte de Chico Alves, em 1952, e a entrega para as drogas, em 59) - e que também começou imitando um ídolo seu, Orlando Silva, ambos tão bons quanto o grande Frank -, andam injustamente esquecidos pela Grande Mídia... Uma pena, porque, com o injusto esquecimento de Nelson, muitos brasileiros, já dados ao comumente infeliz "complexo de vira-latas", jamais poderão colocá-lo "frente a frente" com Sinatra num "dueto" de "competição" entre os dois grandes para ver quem seria o "maior"...

No fundo, acho que todos foram geniais no que se propuseram a fazer: Frank, Nelson, Orlando, Nat King Cole, Francisco Alves, Tony Bennett (único ainda vivo e em atividade)... Entretanto, penso que Frank Sinatra foi o maior na sua completude inigualável e na figura icônica que manteve na mais constante longevidade para um cantor! Por outro lado, nas opiniões deles mesmos, sempre houve "o maior", a depender da sensibilidade artística de cada um: eu me lembro bem que Frankie disse, em certas ocasiões de (falsa?) modéstia, que não seria ele o maior, mas Bennett; já Nelson, num dos seus arroubos de sobriedade totalmente despidos de vaidade, teria uma versão diferente de si mesmo: num encontro com o próprio Frank Sinatra em Nova Iorque, "The Voice" teria dito ao cantor brasileiro, após ouvi-lo apresentar-se, - É, meu amigo: eu sou bom, mas você é melhor! (história que, para além do próprio falastrão Nelson, costumava ser endossada por muitos dos seus fãs, como o seu compositor favorito, Adelino Moreira, e pelo meu saudoso avô Sebastião)... Tudo invenção, tal como comprova a maioria dos biógrafos da Música Brasileira (e a própria realidade: ao contrário de Jobim, costumeiramente citado como um dos maiores compositores, não se tem registro de Frank falando sobre Nelson)! Encontro de Tom, Frank e Nelson, por aqui, somente em antigas rodas de amigos, onde eu costumava brincar, depois de algumas taças de vinho, de imitar os três ídolos de longa data (claro que deixando a desejar aos originais, logicamente)! Mas bem que esse grande encontro entre boêmios de diferentes realidades e estilos poderia acontecer, seria incrível... Quem sabe se eles já não se encontraram no além, trocando ideias sobre suas experiências no botequim?!


Uma bela e inteligente fusão, de imagens e músicas, entre as confidências de botequim dos estilos de Nelson Gonçalves e de Frank Sinatra...

sábado, 5 de dezembro de 2015

Woody Allen 80 Anos:
A Lista dos Melhores

Costumo dizer que meu diretor favorito é Stanley Kubrick. Mas falo no sentido mais "técnico", de ser ele o mais completo, o melhor no sentido da cinegrafia mais constante e consistente. Sem esquecer, é claro, o seu "estilo" todo próprio facilmente identificável as múltiplas camadas de profundidade e emoção normalmente presentes em seus trabalhos, que me arrebatam com facilidade ao ver ou rever um filme seu. Amo Scorcese, Fellini, Hawks, Ford, Pereira dos Santos, Spielberg, Moniccelli, Bergman, mas posso dizer que vejo "falhas" em muitos trabalhos destes, afora o fato de nem todos os seus filmes mexerem comigo, como os de Kubrick. Mas há outro diretor/roteirista que igualmente costuma me arrebatar - ainda que sem a constante consistência de qualidade do recluso cineasta de 2001, mas com quase idêntico "perfil autoral" facilmente reconhecível em seus filmes. O que me faz chamá-lo, também, de meu favorito...

Falo do escritor (dramaturgo, roteirista, cronista), ator e cineasta Woody Allen, meu "diretor preferido" no sentido afetuoso, portanto, da expressão - que, nesta semana, chegou à casa dos 80 ainda em atividade, igualando outros grandes nomes por trás das câmeras de ontem e de hoje, como o genial Kurosawa e o carismático Eastwood. E nesses quase 60 anos de carreira no controle artístico dos seus filmes (sua primeira direção "oficial", O que há, tigresa?, só dublagens absurdas por cima de um filme japonês, é de 1965, mas seu primeiro "filme real", Um assaltante bem trapalhão, é de 69), é incrível perceber que o seu Cinema continua incrivelmente bom em sua ampla maioria e não envelhece ou perde o vigor jamais! Muito pelo contrário: é possível ver um frescor quase adolescente em comédias recentes trabalhando com atores bem mais jovens (como nos divertidos Igual a tudo na vida, com Jason Biggs, e no melhor segmento de Para Roma com Amor, com Jesse Eisenberg), apresentando criatividade em meio à mesmice dos anos 90 (com o delicioso musical cômico de Todos dizem eu te amo) e sendo capaz de uma verdadeira renovação de clássicos para os anos 2000 (como Match Point por cima de seu próprio Crimes e Pecados, ambos inspirados na obra-prima da Literatura russa, Crimes e Castigos, ou Blue Jasmine, seu Um Bonde Chamado Desejo com uma moderna Blanche Dubois revivida pela oscarizada Cate Blanchet)!

É por essas e por outras que posso dizer, de boca cheia, que sou um assumido fã de Woody Allen! Daqueles ditos "de carteirinha", embora não pertença a nenhuma associação ou fã-clube de verdade. Mas posso me considerar como um dos maiores "especialistas" de sua obra, de tanto admirar seu estilo permeado de Música Clássica e Jazz, de amar seus roteiros precisos e seus pateticamente brilhantes personagens neuróticos (mesmo quando a história nem é tão nova ou sensacional, ainda assim o roteiro sobressai com sua pegada precisa e seus tipos geralmente inesquecíveis), sua facilidade em transitar entre a Comédia e o Drama da Tragédia e reconhecer seu humor genial mesmo no mais sutil diálogo existencialista ou amoral colocado nas bocas dos maiores astros do momento - que, dizem, vão aos tapas para fazer nem que seja uma participação em qualquer de seus filmes, com fartas chances de indicações ao Oscar de melhor atuação! Um diretor tão incrível e presente em cada fotograma que é capaz de parecer estar em todos os seus filmes, uma vez que, mesmo naqueles em que não atua, normalmente consegue arrancar, de seus protagonistas, atuações no melhor estilo "puro Woody Allen"!

E, mesmo com derrapadas imperdoáveis (como o desastroso e inclassificável Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, o paupérrimo drama Sonho de Cassandra e a sonolenta e inexistente comédia de O Escorpião de Jade), consegue manter-se divertido até em muitos dos seus filmes mais fracos (como em Trapaceiros, Dirigindo no Escuro, Celebridades e Scoop - O grande furo), revelar-se um grande ator em produções de outros diretores/roteiristas (como em Feitos um para o outro, Sonhos de um sedutor Cenas em um shopping FormiguinhaZ) e manter uma vasta e riquíssima trajetória cinematográfica ao visitar e revisitar praticamente os mesmos temas - deboche às hipocrisias das convenções sociais; medos, neuroses e anseios da classe artística/intelectual; frustrações e expectativas sexuais e amorosas -, mas sem nunca mostrar-se repetitivo!

E, com "menção honrosa" a pequenas pérolas que merecem mais atenção do grande público - como as ricas gemas de Tudo pode dar certo, com o hilário ex-Seinfeld Larry David; Poderosa Afrodite, com uma das prostituas mais divertidas de todos os tempos(Mira Sorvino na interpretação da sua vida); Poucas e Boas, com o louco casal vivido por inspiradíssimos Sean Penn e Samantha Morton; da tresloucada comédia típica de seu humor mais non-sense dos anos 70 em Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar); e do seu hilário curta inserido no filme Contos de Nova IorqueÉdipo Arrasado -, os Morcegos celebram o mais novo octogenário do Cinema ao homenageá-lo com a seguinte lista dos seus 15 melhores filmes (em 10 posições):


10.º - A Rosa Púrpura do Cairo 
Clássico imediato, a história do personagem que abandona a tela do seu filme e se apaixona pela sua ardorosa fã cativa mesmo quem não é grande admirador do estilo do diretor novaiorquino, tanto pela criatividade quanto pela nostalgia.
9.º - Meia-Noite em Paris / Tiros na Broadway
Roteiros aparentemente simples, porém milimetricamente geniais, dominam esses dois ótimos filmes (sempre há um empate técnico nas listas dos Morcegos para que mais filmes sejam homenageados e lembrados... - Oh, don't speak!).
8.º - Interiores / Memórias
Apesar de dividirem opiniões e serem "filmes-homenagens" bastante distanciados do estilo pessoal do cineasta, este Drama e esta Comédia são excelentes e sensíveis facetas de um outro Allen, que nunca escondeu seu fascínio por Bergman e Fellini.
7.º - Neblina e Sombras
E, falando em Fellini, o final desta inteligente comédia em tons de pastiche noir não poderia ter mais a ver com a visão de circo do famoso diretor italiano.
6.º - Vicky, Christina, Barcelona
Moderna e profundamente inteligente comédia-romântica de costumes, com Scarlett Johanson e Penélope Cruz nos auges de suas sensualidades (e comicidades!).
5.º - Match Point - Ponto Final / Crimes e Pecados
Falando na sensualidade da Scarlett... Os dois filmes empatam na quinta posição e se completam na homenagem de Woody ao Drama e ao Suspense de uma de suas tragédias literárias favoritas: Crime e Castigo, de Dostoiévski.
4.º - Zellig / Um assaltante bem trapalhão:
Duas de suas mais hilariantes e inteligentes comédias do começo da carreira, ambas em tom documental! Sempre um sujeito tentando se adaptar...
3.º - Hanna e Suas Irmãs
Perfeita simbiose entre humor ácido (na figura do personagem vivido por Allen, Mickey, que, após descobrir que teria vivenciado uma "cura milagrosa", passa a titubear entre as várias religiões existentes) e o drama pesado (rivalidades e adultério entre irmãs), associada a um elenco impecável (Diane Wiest e Michael Caine levaram seus Oscars pra casa, além de Allen, como roteirista), fazem deste um filme imperdível!
2.º - A Era do Rádio / Manhattan
Nessas duas comédias mais poéticas e nostálgicas de Woody Allen (e dois dos melhores filmes de todos os tempos), Nova Iorque é cidade-personagem - tanto em sua versão da recessão dos anos 30 como no romantismo em preto-e-branco nos céticos anos 70. Situações e personagens geniais!
Annie Hall
1.º - Annie Hall - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
Indubitavelmente o seu melhor filme (além de um dos melhores da História), consegue ser, ao mesmo tempo, uma enternecedora história de amor e uma comédia deslavadamente inteligente de quadros, definindo as principais características do seu estilo para todos os seus trabalhos posteriores! Um pitoresco, engraçado e criativo panorama sobre as relações pessoais, desde a infância até a "maturidade" de um inesquecível Alvy Singer, que encontra seu grande amor (a Annie Hall do título, personificada magistralmente por uma então linda e também oscarizada Diane Keaton, então namorada do cineasta: papel sob medida), perde esse grande amor e reflete sobre a vida a partir da maravilhosa experiência de ter amado e perdido - e, no meio de todas essas digressões existencialistas, debocha do mundo e das pessoas medíocres à sua volta... Uma obra-prima absoluta que surpreendeu até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que lhe concedeu, em 78, 4 Oscars (Filme, Direção, Atriz principal e Roteiro original) mais do que merecidos - embora, como todos já sabem, "ignorados" por Allen, que não compareceu à cerimônia porque tocava jazz toda segunda à noite...

sábado, 28 de novembro de 2015

Um baldio adeus...

Jamais me esquecerei daquela tarde marcada pelo meu pai... Afinal, graças a ele, eu me encontraria com um dos maiores poetas da Língua Portuguesa - e que, por acaso, era seu primo: Nauro Machado! E lá fui eu, ensimesmado em meus vinte e poucos anos e com meu "portfólio" esquálido de alguns de meus melhores poemas escolhidos para participar de um concurso literário local, que eu ansiava fossem lidos pelo Mestre - isso, é claro, se eu conseguisse entregá-los!

Pontualmente, chegava aquele velho calvo e de barbas alvas e bem cuidadas, em seus trajes sociais de mangas curtas com seu inafastável guarda-chuva repousado no braço direito, enquanto eu o aguardava nervosamente na frente de sua repartição pública da Secretaria da Cultura do Estado, no Reviver. "Teu pai falou comigo que és escritor, que também és um poeta! O que querias deste velho cansado de Poesia?", brincou comigo, de cara, no que eu gaguejava e só sabia me diminuir: "Quem sou eu, Poeta: o senhor é o Mestre! Sou seu fã há muito tempo, ainda mais depois que li sua 'Antologia Poética', aquela, com prefácio de Drummond... Só vim ter a honra de conhecê-lo"...

Nisso, ele me convidou para entrar e tivemos ali uns dois dedos de prosa - prosa essa que, em retrospecto, confesso sinceramente nem saber como se deu, uma vez que eu mal conseguia falar, tremendo e gaguejando diante de um ídolo: meu Deus, era Nauro Machado que estava ali! E o espanto nem era por qualquer distanciamento ou dificuldade imposta por sua figura aparentemente austera, quase um bruxo do conhecimento, não: amante do Centro Histórico e morador da Rua das Hortas que sempre foi, coisa mais fácil era encontrar o gênio a descer e a subir as ladeiras seculares de São Luís com sua silhueta elegantemente longilínea e, mesmo vista de longe, visivelmente reflexiva (adoráveis os causos contados pelo meu pai sobre sua figura, especialmente a de um jogo de damas interrompido pelo Poeta por causa de uma inspiração, o que teria enfurecido o meu Velho). O nervosismo era coisa de não saber mesmo o que dizer diante de alguém que admirava tanto, à distância, pelo poder de seu talento e sua cultura...

E, num desses silêncios meus de admiração em meio à nossa "conversa" - coisa patética que, tenho certeza, fatalmente se daria se eu igualmente desse de cara com outros ídolos, como Chico Buarque ou João Gilberto -, ele, jocosamente, deu uma palmada em minha coxa direita, como que a me despertar daquele transe, e me disse uma frase, bem alto, que jamais esqueceria: "Tem que ler, poeta: não se faz Poesia, nem se escreve, sem ler!", depois que falara sobre o que estava lendo naquele momento: alguns dos grandes franceses, como Rimbaud, em seus idiomas originais (a melhor forma de se sentir Poesia...). Eu que sempre lera Poesia, mas, é claro, infinitamente menos que ele, apenas sorri desconcertado, admitindo, meio que tacitamente, que a avidez pela Crônicas e pelos Contos me havia, realmente, sempre sido um pouco maior!

Logicamente que jamais lhe mostrei meus escritos, não tive coragem. Mas agradeci demais por aquele encontro e todas aquelas breves lições que carrego até hoje em meu peito de poeta amador... Ainda o encontraria algumas vezes, como na locadora de seu filho, o cineasta Frederico Machado, ou nalguma feira do livro: "- Estás gostando, poeta (ele insistia em me chamar assim)?" "- Achando os preços ainda um pouco salgados para uma feira, Mestre..." "- Mas livro não é caro! Caro mesmo é aquela coisa ridícula chamada de abadá, imundície feita para se brincar uma noite nessas micaretas toscas, aquilo que é caro!"... Mas nunca lhe mostrei um verso meu sequer! Faltou coragem, medo de alguma crítica mais dura ou seria apenas reconhecimento de pequenez diante de um ídolo? Nunca vou descobrir... Tudo o que sei é que, ao tomar conhecimento, hoje pela manhã, da sua partida, não houve como não ficar triste e reflexivo, especialmente diante de seus versos sempre a elucubrar sobre a existência e a essência da Poesia em si - e, quase que instantaneamente, vieram à mente os derradeiros versos de "O Parto", um de meus favoritos do Grande Nauro (como eu lhe retribuía o gracejo do "poeta" que recebia): ser poeta é duro e dura/ e consome toda/ uma existência... Nada mais certo diante de uma vida embriagada e desbravadamente devotada à Poesia que este gênio teve ao longo destes 80 anos bem vividos! 

Saísse do Maranhão e seria reconhecido pelo Mundo, mas preferiu fazer de seu mundo esta ilha encantada por seus versos, um baldio e genial poeta e funcionário público, tal como outro famoso grande gênio dos versos... E, saindo do Centro, morreria um pouco - tal como se deu, na realidade, desde a descoberta de seu "aguardado" câncer (Estou esperando o câncer que seja mestre), quando acabou por abandonar seus amados paralelepípedos históricos em troca de uma proximidade maior com o filho, no moderno e "nobre", porém estéril de poesia, bairro do Renascença... Mas, apesar de tudo isso, a tristeza sobre a partida de Nauro Machado aos poucos, ao longo deste sábado, foi em mim se desfazendo justamente pelo Poder ainda atual de sua obra-viva, que lateja e goteja inúmeras inspirações a cada lida minha nalgum de seus livros brilhantes, cheios de um estranho lirismo metafísico que acalenta e derruba o mais incauto visitante de seu trabalho perene. 

E assim, aos poucos, depois de uma breve visita a alguns de seus versos mais caros no pouco tempo deste sábado entre os filhos e os afazeres do inefável existir, foi-me vindo a boa sensação de que ele bem poderia estar a se informar, com sua ainda mais magra silhueta depois dos últimos anos de luta contra sua doença, onde é que, no outro lado, poderia encontrar mais dos seus - e a reviver os versos cheios de pungência sobre a vida e a morte de meus outros ídolos, fiquei com a boa certeza de que Drummond, Bandeira, Cecília e Pessoa o receberão de braços abertos, a tratar, de igual pra igual e pela eternidade, sobre o que é poetizar...
O Poeta-funcionário público (à Drummond), caminhando pela "sua" praça...

Ofício 

Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo. 
Espaço do tamanho do meu corpo aqui, 
enchendo inúteis quilos de um metro 
e setenta e dois centímetros, o humano de quebra. 
Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater 
serviços de excrementos em papéis caídos 
numa máquina Remington, ou outra qualquer. 
E me mandam pro inferno, se inferno houvesse 
pior que este inumano existir burocrático. 
E depois há o escárnio da minha província. 
E a minha vida para cima e para baixo, 
para baixo sem cima, ponte umbilical 
partida, raiz viva de morta inocência. 
Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui? 
E depois ninguém sabe mesmo do espaço 
que ocupo, desnecessário espaço de pernas 
e de braços preenchendo o vazio que eu sou. 
E o mundo, triste bronze de um sino rachado, 
o mundo restará o mesmo sem minha quota 
de angústia e sem minha parcela de nada. 

Nauro Machado

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

- Não é hoje o dia em que eles voltam para o futuro...?!

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- Sim, é hoje...!

Eu ainda estava extasiado com aquela história incrível, autêntica ficção científica repleta de aventura e comédia (sendo que a capa do VHS o classificava somente neste último gênero, reduzindo-o, pois: aquilo era muito mais que "só" comédia!), com tudo finalmente se resolvendo às mil maravilhas para Marty McFly (Michael J. Fox) com sua volta para casa na discreta HillValley, em 1985, depois das sérias confusões causadas por ele, ao, sem querer, alterara todo o passado dos seus pais - e, consequentemente, o seu - quando viajara, também por acidente, para 1955, naquele incrível carro máquina do tempo (DeLorean - o mais "futurista" dos carros!), e em uma questão de minutos, talvez segundos, aconteceria o final perfeito, faltando somente a coroação com o beijo da namorada alheia a toda a aventura desenrolada, quando, de repente, os então calmos acordes com o famoso tema de Alan Silvestri eram interrompidos pela barulheira toda advinda do choque do "rompimento do tempo" (momento em que o DeLorean irrompia do nada, vindo de algum momento do passado ou do futuro, em meio a fogo e raios), e, de dentro do carro, saía nervosamente um Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd) com roupas e acessórios extravagantes para avisar que Marty e sua namorada precisavam vir com ele - Para onde?, perguntava o assustado casal - Ora, de volta para o futuro! - e tudo porque os filhos do protagonista estariam metidos numa grande enrascada! - Mas, Doc, esta rua não tem espaço para alcançarmos 88 milhas por hora... (cerca de 142 km/h) - Rua...?! Para onde vamos não precisamos de nenhuma... rua! - no que o DeLorean flutuava no ar, recolhia seus pneus, fazia uma manobra voadora e irrompia em direção à plateia, como que levando a todos nós, embasbacados espectadores, juntos para uma nova viagem no tempo! Simplesmente maravilhoso e mágico!

Perfeito, hurras! Nada poderia ser melhor: o título do filme "explicado" com a fala final do inventor (um inteligente jogo de palavras em antítese com o verbo "voltar"), a aventura jamais cessaria e os nossos heróis seguiriam para um futuro tal como o visto nas antigas obras de Ficção, onde os carros seriam voadores e não precisariam de nada além de lixo como combustível (isso era até crível pra muita gente na pura década de 80, quando os anos 2000 ainda eram coisa distante)! Para mim, aquele seria o final de toda a trama, aquele mais que perfeito para que os espectadores ficassem só na imaginação do que viria depois, tal como num bom livro... Só que não: milésimos de segundos após a minha euforia com o final em aberto, eis que surgia na telinha um To be continued... (algo como "A continuar...", ou melhor, "Aguarde continuação...") no estilo do letreiro do próprio título, com as setas indo e voltando, para, só então, começarem os créditos ao som de Back in time, do mesmo grupo Huey Lewis and The News, de Power of Love (clássico que concorreu ao Oscar de melhor canção em 86, mas perdeu para o "hino de motel" Say You, Say Me, de Lionel Ritchie): adeus, imaginação - a mágica dupla de ouro, Spielberg/Zemeckis (sem poder esquecer o genial roteirista Bob Gale), daria sequencia àquilo tudo como se inacabado fosse e botaria a perder, numa futura continuação, toda a originalidade criativa e perfeitamente encerrada em De volta para o futuro- Não vai prestar... - resmungava eu, no final daquela memorável sessão familiar de 89 (só então adquirimos o nosso primeiro videocassete e o filme seguia inédito na TV brasileira), no que todos só faltavam me devorar as entranhas: - Claro que vai prestar: eu li que eles vão pra 2015, voltam para 1955 como no primeiro, e ainda vão parar no Velho Oeste... Vai ser massa: não tem como dar errado!... Só que, infelizmente, deu, sim...

Pouco tempo depois, eu teria a comprovação das favas contadas ao ler na hoje extinta VideoNews que já estava sendo filmado não somente De volta para o futuro - Parte II, como também a Parte III, simultaneamente, para, ainda em 89, ser lançada aquela, com um interregno de apenas 6 meses previsto para o lançamento desta como o fim da trilogia nos cinemas (sendo que, aqui em São Luís, só comecei a ver tudo de meados finais de 1990 em diante)... Claro que eu veria as duas continuações, várias vezes (gravei um "pirata", de um videocassete para outro, e perdi as contas de quanto rebobinei pra ver de novo!): com toda aquela equipe criativa por trás, e eu, um animadamente cinéfilo adolescente consumista das continuações que viessem sem me preocupar muito com qualidade (como os também "pecaminosos" Caça-Fantasmas 2, Gremlins II e Robocop 2), não haveria como acontecer uma coisa terrivelmente ruim (bem, De volta para o futuro Parte III, né, com tanta repetição das primeiras histórias simplesmente adaptadas para o Velho Oeste...)! Mas, colocando sob a perspectiva do primeiro, ambas as sequências comprometiam o original numa noção de conjunto e nada mais eram do que meras aventuras isoladas e "engraçadinhas", muito longe de uma "necessária" continuação... E, mesmo que haja seus defensores até hoje, uma trilogia de De volta para o futuro mostrou-se, com o tempo, totalmente desnecessária (fizessem só uma sequência e olhe lá)! Tanto é que o mundo inteiro se lembra da história inteligentemente bem desenvolvida do primeiro filme, mas só cita algumas passagens dos outros dois como "cenas engraçadas" - como a do "skate voador" e do louco tráfego de carros no céu da segunda parte e a da "ponte Clint Eastwood" com o "trem voador" da terceira. Enfim, eu estava certo!

Tal como se daria, uma década depois, quando, na virada do século (e do milênio), o divisor de águas do Cinema de Ficção Científica Matrix terminava de forma semelhantemente em aberto, com Neo (Keanu Reeves em seu melhor papel), depois de passar o recado para a Matrix por telefone, sai voando como um super-herói, com domínio completo sobre o maligno sistema virtual, prenunciando 'n' possibilidades de continuação daquela trama incrível (mas sem o chato To be continued...), e eu anunciaria, tempos depois, em alto e bom som: - Não vai prestar essa nova trilogia que andam anunciando, vão por mim... Deixassem Matrix acabar com aquela cena da conversa de Neo e seu surpreendente voo e virava uma obra-prima!, mas ninguém me deu ouvidos e o resultado foi o desnecessário Matrix Reloaded e o insosso Matrix Revolutions (e olha que sou ameno nas críticas, porque a ampla maioria nerd simplesmente odeia esses dois subprodutos, com uma pequena margem de ódio a mais para o terceiro)! Sem querer, eu criara, com a simbiose das duas trilogias mais forçadas do Cinema, uma teoria cinematográfica: a do "Diga não a uma nova trilogia: o final em aberto do primeiro filme é mais digno!"...

Mas uma coisa não há como negar: todos nós nos divertimos muito com as partes seguintes de De volta para o futuro - especialmente com a "Parte II", com todas aquelas maluquices de um futuro ultratecnológico no melhor estilo dos Jetsons! E hoje, 21 de outubro de 2015, além do aniversário do meu pai (que jamais curtiu filmes "sem nexo" como esse), virou a mais nova data nerd, em celebração ao mais que atual detalhe visto no visor da máquina do tempo mostrado no comecinho ddo filme: esta seria a "data de destino" em que Marty, Doc e Jennifer (Elizabeth Shue, substituindo Claudia Wells do primeiro filme) chegariam ao futuro, exatamente 30 anos em relação à primeira trama, 1985 (e também ano em que foi filmado), transformando este dia no Dia da Trilogia De Volta para O Futuro! Tudo bem, nada de existirem ainda hoverboards (o sensacional skate que "só não flutuava sobre a água"), nem roupas "auto-secantes"e, é claro, muito menos sobre carros voadores a formar os novos congestionamentos nos céus neste nosso real 2015 - mas, sei lá, acho que não custa nada cada fã destas tramas mirabolantes dar uma espiadela para o alto hoje: vai que eles voltam, inovando e reinventando a nossa época atual?!

De qualquer forma, empresas diretamente ligadas ao merchandising direto da Parte II, como Nike, Pepsi e algumas montadoras de carros avisaram já há algum tempo que lançariam produtos idênticos aos mostrados no filme, ou ao menos equivalentes, a fim de faturar em cima do mega-evento - será que, enfim, teremos aqueles tênis fabulosos de cadarços automáticos?! Não se podendo esquecer que nesta data especial serão relançados, nos cinemas. o primeiro filme (em comemoração aos 30 anos de seu lançamento), e, em Blu-Ray, a trilogia completa, recheada de extras inéditos! E, num tempo em que é proibido sentir saudade, conforme desenvolvi numa postagem por aqui há algumas semanas, nada mais justo do que um filme (ou uma trilogia) que brinca com conceitos de tempo para nos resgatar uma época ainda cheia de deliciosamente loucas ideias fervilhantes de um caldeirão (ou seria melhor "capacitor de fluxo"?) de cultura pop que talvez nunca mais se repita... O futuro está aí - e, exatamente hoje -, que não me deixa mentir! - Great Scott!

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